Parque Olímpico muda cara de região empobrecida

No leste de Londres, onde estão as grandes instalações, até a língua é diferente da falada no resto da cidade

ADRIANA CARRANCA , ENVIADA ESPECIAL/LONDRES, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2012 | 03h03

"A re ya?"

"Re a yew from?"

Se você fala inglês e continua confuso, bem-vindo ao extremo leste de Londres, que abre hoje suas portas ao mundo para a Olimpíada 2012. Arena principal das competições, a região onde fica o Parque Olímpico fala outra língua: o cockney. É o idioma da classe operária londrina do entorno.

Newham, Whaltam Forest, Tower Hamlets e Hackney, nas cercanias do complexo esportivo, ainda são os bairros mais pobres da capital, algo que se pretende mudar com os investimentos trazidos pelos Jogos.

"I'ope yew feel like 'ome" (espero que se sinta em casa), o visitante ouvirá de Janet Dooner, dona do Railway Tavern, um pub existente no mesmo local há dois séculos, 46 anos dos quais sob a administração de sua família. Está à beira da ferrovia que agora ladeia o Parque Olímpico.

A vista privilegiada para a sede dos Jogos motivou Janet a transformar os andares de cima, onde morou quase toda a vida, em hotel. Uma volta às origens. A taverna nasceu em 1812 para receber imigrantes, soldados, marinheiros, forasteiros, ciganos que chegavam pela ferrovia ou no atracadouro próximo.

Ainda hoje, o leste londrino é uma região de minorias étnicas, principalmente do sudeste asiático. Se as paredes de sua Railway Tavern falassem, contariam muitas histórias de gente que chegou a Londres trazendo apenas o sonho de uma vida melhor. É assim desde pelo menos 1500.

Janet mostra as fotos da antiga doca onde, até pouco antes da construção do Parque Olímpico, era feita a descarga e armazenamento de mercadorias a serem distribuídas na região. O fish & chips, mais tradicional prato londrino, nasceu ali, para alimentar os que chegavam. "Havia muitos peixeiros aqui. Agora chega tudo empacotado na prateleira do supermercado", estranha Dave Metcalfe, 55 anos passados em Newham.

Metcalfe mora com a mulher indiana em um conjunto habitacional do governo a poucos metros da agora renovada estação de metrô e trem Stratford International. Ele está apreensivo sobre os rumos da região e, principalmente, os preços. A preocupação é que se torne muito cara, por causa da revitalização.

Hoje, o aluguel de um apartamento de um quarto custa em média 600 libras. No mês dos Jogos, estão alugados por 3 mil libras. "O que vai acontecer depois, não sabemos", diz.

Êxodo. Antigos moradores já deixaram a região. "Há cinco anos, quando a economia era boa e o leste foi escolhido para abrigar o Parque Olímpico, muitos aproveitaram para vender seus apartamentos", diz Janet. "Meus vizinhos se mudaram, mas este é o meu lugar, meu meio de vida. Para os negócios, tem sido bom e acho que, como legado, será ainda melhor."

Ela participou do planejamento desde antes de a cidade ser escolhida como sede, quando recebeu a visita do primeiro-ministro britânico, David Cameron, para saber se a região poderia comportar as instalações.

O primeiro-ministro promete manter as melhorias como legado dos Jogos Olímpicos. O plano inclui transformar a Vila Olímpica em residência para 6 mil habitantes e escola para 1,8 mil crianças; parques e centros esportivos para a comunidade. O Centro de Imprensa será transformado numa área de escritórios. E há sinais de novos negócios, atraídos pelas mudanças urbanísticas na região, como um novo câmpus da universidade de Birbeck.

"Era uma das piores regiões de Londres. Havia muito crime, brigas de rua", diz Sid, de 29 anos, paquistanês nascido em Newham que abriu uma barraca de óculos escuros no antigo mercado de Stratford, agora vizinho ao sofisticado Westfield.

Newham, Whaltam Forest, Tower Hamlets e Hackney ainda enfrentam problemas com gangues de rua, embora a presença ostensiva da polícia para os Jogos tenha mantido a região calma. A dúvida é o que virá depois.

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