''Participação especial de ...''

Todo mundo já viu em letreiros de filmes a expressão "participação especial de" com o nome do ator. Como o nome indica trata-se de um ator que aceita participar de um filme fazendo um papel curto, que lhe toma pouco tempo de filmagem. Geralmente essas participações especiais são confiadas a grandes atores veteranos muito conhecidos e queridos, que emprestam ao pequeno papel todo o prestígio de uma carreira de sucesso.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2010 | 00h00

Essas participações, em geral, são ótimas para o filme e para o ator, que não precisa se submeter a longos períodos de espera, à repetição de ensaios e cenas, ao capricho de imprevistos vários que podem retardar uma filmagem. Quem faz uma participação especial sabe que é especial mesmo e é assim que deve ser tratado para nos dar o prazer de vê-lo atuar.

Nunca tinha visto isso no futebol, agora começo a achar que existe.

Ronaldo Fenômeno, a meu ver, inaugura esse novo gênero de jogador de futebol: o que faz participações especiais. Entra de vez em quando, joga um pouco e desaparece, para reaparecer quem sabe quando, em outra participação especial. Não é mais o Ronaldo dos velhos tempos. Mas, exatamente como o grande ator das participações especiais, algo de sua arte ainda está lá. Ou talvez imaginemos que esteja. Ou talvez Ronaldo brinque com a nossa memória e com as inúmeras vezes em que o vimos fazer maravilhas.

Belos lances. De vez em quando elas aparecem num lançamento sutil, numa bola em que ele coloca o companheiro na frente do gol, ou num gol que ele mesmo faz. Não são muitos esses lances, mas todos lembram dos gols contra o S ão Paulo e o Santos na temporada passada. O que se esquece são suas ausências. Ou por outra: aguarda-se sempre que volte.

A coisa está funcionando, a meu ver, por duas razões. A primeira é que inegavelmente o Corinthians não está precisando muito de Ronaldo, como acabo de ver no jogo contra o Fluminense. Passa, aparentemente, muito bem sem ele. A segunda razão é Ronaldo, ele mesmo. Simpático, seu sorriso cativa, sua simplicidade desarma. Trata todo mundo igual, parece se dar com todos os companheiros, nunca se viu uma só atitude de arrogância ou prepotência. Bom malandro, Ronaldo sabe que vive da simpatia e dos bons tempos. Fez por merecer.

Publicidade. Como esses velhos e lendários atores, pode se dar ao luxo de aparecer só de vez em quando para prestigiar um acontecimento com sua presença grandiosa. Como esses atores consagrados talvez não tenha mais paciência para treinamentos, para regimes alimentares, para concentrações longas, para temperaturas muito altas, para se livrar das divididas. Mas todos querem vê-lo ainda, principalmente a publicidade que não cessa de reclamá-lo.

Ronaldo é mesmo um fenômeno, mas atualmente, de marquetingue. Raramente joga, mas está sempre na tevê, aparecendo nos comerciais que não desistem dele. Sua simpatia vai além da torcida do Corinthians. Sua vida em campo, cheia de problemas e superações, ajuda a solidificar sua condição de mito.

Merecido. Mais que qualquer outro jogador no Brasil, ele tem o direito de gozar esse fim de carreira com toda a pompa. Vai sair por cima. Mas será que vai mesmo sair? Duvido muito. Acho que a novidade que instaurou no futebol veio para ficar por muito tempo. A escalação do Corinthians anunciada do seguinte modo: "elenco" e o nome dos dez jogadores e "participação especial de" Ronaldo Fenômeno.

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