Passividade

Quando o árbitro encerrou o jogo que deu a medalha de ouro ao México, em Londres, um ou outro atleta brasileiro caiu no choro, mas boa parte levantou a cabeça, e "bola pra frente". Os 2 a 1 acabaram com o fim de semana de muita gente por aqui. Anteontem, o São Paulo levou surra inesquecível do Náutico, e certamente houve torcedor que perdeu o sono. A maioria dos atletas, no entanto, saiu de campo conformada, provavelmente pensando que "o Brasileirão está no começo e as coisas podem melhorar".

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2012 | 03h06

Nosso futebol clama hoje por personagens como Telê Santana, mestre que perdia o humor e o apetite nas derrotas, e jamais admitia ver profissional de seu time jogando a toalha antes do fim do embate ou aceitando passivamente um resultado negativo, como temos visto com frequência.

Perder, claro, faz parte desse esporte apaixonante. Mas lutar e respeitar o sentimento do torcedor são obrigação de cada um que veste a camisa de clube ou seleção. Um dos casos mais simbólicos, para mim, ocorreu em maio, momentos depois da eliminação do Botafogo na Copa do Brasil, em casa, pelo Vitória. "Fiquei triste quando meu avô morreu, porque não poderei mais vê-lo", ironizou Loco Abreu, ao falar de sua "tristeza" pelo fiasco da equipe carioca.

O atacante uruguaio, com a declaração desdenhosa, parece não ter dado importância ao sofrimento da torcida, que pagou ingresso, pegou trânsito até o estádio, apoiou o elenco e se decepcionou com o placar. Hoje, está no Figueirense.

Treinadores e dirigentes muitas vezes mimam demais seus garotos e minimizam fracassos retumbantes. No futebol da Olimpíada, por exemplo, nós não ganhamos a prata, e sim perdemos o ouro. Numa competição em que o Brasil enfrentou Egito, Bielorrússia, Nova Zelândia, Honduras, Coreia e México - sem seu principal nome - só um resultado seria aceitável: o primeiro lugar. Talvez a vitória inútil sobre a desfalcada Suécia, em amistoso na quarta-feira, já tenha apagado o vexame de sábado.

A prata vale muito para o basquete, o vôlei, o atletismo, o boxe, o judô, em que equipes e atletas passam anos dedicando-se exclusivamente para a Olimpíada. Nessas modalidades, só os melhores entram na quadra, na pista, no ringue, no tatame. No futebol, os Jogos Olímpicos são relegados a segundo plano por quase todas as seleções tradicionais. Menos pelo Brasil, atrás do título inédito.

No Brasileirão, quem me lembra a seleção da Olimpíada e da Copa América (torneio em que também fez papelão, no ano passado) é o São Paulo. A equipe até tem alguns jogadores razoáveis, mas parece não sentir atração pela vitória. Depois de cair diante do Grêmio no Morumbi, mostrou incrível passividade na humilhante derrota para o Náutico, nos Aflitos. Coitado de Rogério Ceni, uma das poucas exceções nesse grupo insosso.

Fico imaginando como Telê, o maior técnico da história do São Paulo e da seleção, está vendo tudo isso, lá de cima...

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