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Paul Deighton: o homem que arrumou dinheiro para Londres 2012

ENTREVISTA: Mesmo com a crise econômica na Europa, o executivo levantou R$ 6 bi no setor privado

DANIELA MILANESE / LONDRES, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h04

Paul Deighton deixou um posto importante no mercado financeiro para se aventurar na organização de uma Olimpíada. Ele era chefe de operações do Goldman Sachs na Europa até que, depois de 22 anos no banco norte-americano, decidiu se candidatar a uma vaga anunciada na revista The Economist. Assim, virou o CEO do Comitê Organizador da Olimpíada de Londres, cargo que ocupa desde 2006. Agora, com toda a preparação quase pronta, a torcida dele é para que a capital inglesa tenha tempo bom durante o evento que começa em 27 de julho.

Trabalhando ao lado do ex-atleta Sebastian Coe, um campeão olímpico que virou presidente do Comitê Organizador dos Jogos, Deighton desempenhou um papel muito importante na preparação para o evento, principalmente na hora de montar e controlar o orçamento.

Mesmo num período de crise econômica, ele conseguiu cumprir a meta de levantar 2 bilhões de libras (cerca de R$ 6 bilhões) no setor privado e vem mantendo os gastos sob controle.

"Uma das coisas mais importantes que fizemos foi reconhecer que o sucesso estava na habilidade do Comitê Organizador de administrar a situação financeira", conta Deighton, em entrevista exclusiva ao Estado. Ele revela que já conseguiu levantar 90% do dinheiro previsto no orçamento, faltando cerca de 200 milhões de libras (R$ 600 milhões), que se referem principalmente à receita dos ingressos que ainda não foram liberados para a venda.

Além do sucesso orçamentário, o planejamento bem executado permitiu que as principais instalações da Olimpíada já estejam prontas com bastante antecedência. Agora, para que a experiência dos Jogos Olímpicos seja totalmente prazerosa, Deighton lembra que o clima na chuvosa e fria cidade de Londres precisa estar bom. E isso é algo que foge totalmente ao controle - uma das poucas preocupações que, segundo ele, o Rio não terá para 2016.

Apaixonado por esportes, Deighton largou o alto salário no Goldman Sachs por uma função com a peculiaridade de ter prazo de validade bem definido. Depois da cerimônia de encerramento da Olimpíada, no dia 12 de agosto de 2012, ele estará virtualmente sem emprego. No seu escritório em Canary Wharf, centro financeiro londrino, com ampla vista para o Parque Olímpico, o executivo de 55 anos concedeu a seguinte entrevista ao Estado.

Como está a venda de ingressos para a Olimpíada?

Já levantamos 500 milhões de libras (R$ 1,5 bilhão) e temos mais cerca de 130 milhões de libras (R$ 390 milhões) em ingresso para vender em abril ou maio de 2012. Não liberamos todos os ingressos de uma vez. O programa de venda colocado em prática para o público britânico no ano passado foi extremamente bem-sucedido. Foi provavelmente a maior venda de ingressos feita de uma vez só na história. Vendemos todos os ingressos imediatamente, com exceção do futebol, que tem muito espaço e muitos jogos. Acho que não tem precedente.

Mas muitas pessoas ficaram decepcionadas com o esquema de venda...

As pessoas ficaram decepcionadas porque a demanda foi tão grande que nem todo mundo conseguiu os ingressos que queria. O processo que usamos, de sortear os ingressos para os eventos com demanda acima da oferta, é claramente a forma mais justa de fazer. Toda a decepção foi resultado da demanda enorme. Tivemos pedidos de 2 milhões de ingressos para a cerimônia de abertura, mais de 1 milhão para as competições de atletismo que incluem a final dos 100 metros. Tivemos 1,8 milhão de pessoas cujos pedidos, somados, chegaram a um total de 22 milhões de ingressos - e só tínhamos 6 milhões de ingressos à disposição para o público interno. A maior procura era pelos grandes eventos ou pelos mais baratos, então todo mundo queria os mesmos ingressos.

Apesar do sucesso orçamentário, a Vila Olímpica e o centro de mídia tiveram de ser socorridos pelo governo em 2009. Como isso está sendo resolvido?

Pelo projeto original, esses dois ativos seriam financiados com dinheiro privado. Com a crise de crédito, como não havia financiamento disponível, o governo forneceu. O orçamento do governo, de 9,3 bilhões de libras (R$ 28 bilhões), inclui um fundo de contingência de 2,7 bilhões de libras (R$ 8,1 bilhões). A Vila Olímpica foi vendida em duas transações diferentes. Uma parte foi para uma organização britânica de casas acessíveis, para assegurar moradia para a população. A outra parte foi vendida para um investidor do setor privado, que é uma joint venture entre uma companhia britânica e um investidor do Catar. A empresa que administra o legado da Olimpíada está atualmente em negociação com possíveis locatários para o centro de mídia.

E como vai ficar o Estádio Olímpico, depois do colapso das negociações da venda para o West Ham (Tottenham entrou na Justiça contra o acordo)?

O plano original era vender o Estádio Olímpico e a transação foi negociada com o West Ham. Por várias questões legais, o governo decidiu mudar o esquema e tomou a propriedade do estádio. Novamente, a empresa que cuida do legado dos Jogos está negociando um esquema de arrendamento com potenciais usuários. O resultado final pode ser muito similar em relação ao uso do estádio, porque o objetivo é combinar futebol com pista de atletismo (que não era o desejo do Tottenham). Como Londres ganhou o direito de ser a sede do Campeonato Mundial de Atletismo em 2017, isso assegura que a configuração do estádio continuará presente depois dos Jogos.

Por que o orçamento com segurança está subindo?

Estamos totalmente comprometidos a garantir que esses Jogos sejam seguros. Para fazer isso, fizemos um plano de operação muito detalhado, local por local. Não apenas onde os Jogos estarão acontecendo. Todos esses locais serão isolados, o que significa que não será possível acessá-los sem passar por revista. Quando terminamos o planejamento, a escala dos requerimentos era maior do que a imaginada. O gasto com segurança deve subir cerca de 250 milhões de libras (R$ 750 milhões).

É verdade que o esquema de segurança prevê que até mísseis ficarão à disposição?

Acho que ninguém tem a intenção de usá-los (risos).

A segurança é sua principal preocupação?

Segurança é uma prioridade muito importante, mas estou confiante de que o plano que temos é excelente e alcançará seu objetivo. Nesse sentido, minha maior preocupação não é a segurança, porque temos isso sob controle.

Qual é, então?

São as coisas difíceis de controlar. Para o sucesso dos Jogos, é realmente importante para o país anfitrião que tenha sucesso nas medalhas. Nossa equipe parece bem preparada, mas essa é a beleza do esporte, não se pode garantir sucesso. Outro exemplo é o clima. Fará uma grande diferença para as pessoas aproveitarem os Jogos se o clima estiver bom. Coisas assim têm um impacto muito importante no resultado, mas não posso fazer nada para garantir isso.

Viajar para Londres pode ser complicado pelo sistema de imigração. Como isso funcionará durante os Jogos?

Estamos sendo claros com todos os membros das famílias dos atletas sobre os requerimentos para a entrada no país. Asseguraremos que isso transcorra da maneira mais suave possível. No Aeroporto de Heathrow, por exemplo, teremos alas dedicadas exclusivas para os familiares para acelerar o processo. Mas o que não faremos é tornar nossas fronteiras mais permeáveis. Para nós, essa não é uma opção política nem de segurança.

Os Jogos Olímpicos trazem crescimento econômico? Não foi o que vimos na Grécia, por exemplo.

No caso de Atenas (em 2004), é difícil avaliar o impacto específico dos Jogos separadamente dos demais desafios da economia. O que a Olimpíada fez por Atenas foi acelerar os investimentos para obter infraestrutura, como aeroportos e estradas. É importante garantir que os investimentos funcionem além dos Jogos. O melhor exemplo são as instalações, porque algumas precisam ser temporárias e outras precisam ter a capacidade ajustada posteriormente, para que não se tornem um elefante branco. Esse tem sido um foco importante para nós. Usamos as existentes quando temos, como Wimbledon para o tênis. Quando precisamos, nós construímos, como o Complexo Aquático, porque, incrivelmente, não tínhamos nenhuma piscina de 50 metros coberta em Londres. Mas não precisamos de outra arena de basquete na cidade, então a do Parque Olímpico é apenas temporária.

Existe contato com o Comitê Organizador dos Jogos do Rio/2016?

Sim, somos muito amigos da equipe do Carlos (Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e do Comitê Organizador dos Jogos do Rio). Eles olham para o que estamos fazendo e, quando é apropriado, buscam as experiências que podem ajudar. Há uma tradição nos Jogos de que os comitês troquem experiências.

O que o senhor vai fazer a partir de agosto de 2012?

Depende de como nos sairmos (risos). Estou tão focado em terminar esse trabalho que não tenho espaço em minha mente para pensar no próximo.

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