Pega no doping, Clemilda recebia o Bolsa-Atleta

Suspensa desde 2009, atleta foi considerada apta pela Confederação a ser bolsista. Terá de [br]devolver R$ 68 mil

Amanda Romanelli,

01 Junho 2011 | 12h22

Flagrada em exame antidoping na Volta da Itália em 6 de julho de 2009, a ciclista Clemilda Fernandes continuou recebendo normalmente os valores relativos ao Bolsa-Atleta, programa de transferência direta de recursos do Ministério do Esporte (ME). A fraude, entretanto, foi descoberta no mês passado e a atleta terá de devolver R$ 68,4 mil aos cofres públicos.

De acordo com o regulamento do Bolsa-Atleta, a punição por doping é causa direta de suspensão do benefício. Isso porque, segundo a pasta, o proponente precisa estar treinando e competindo para fazer jus ao programa.

Mas como a ciclista, que representou o Brasil nos Jogos de Pequim/2008, recebeu 28 parcelas do Bolsa-Atleta, categoria olímpica, mesmo punida por doping?

Porque, alega o ME, Clemilda apresentou uma carta da Confederação Brasileira de Ciclismo que atestava suas condições de receber a verba. Ou seja, a CBC omitiu a suspensão da ciclista.

Denúncia. O ME só descobriu a fraude após a revelação do escândalo de doping do ciclismo brasileiro, denunciado pela TV ESPN Brasil no início do mês de maio. A emissora revelou que a CBC escondia diversos casos de doping desde 2009 para não perder o patrocínio do Banco do Brasil.

À época, integrantes de equipes de ciclismo afirmaram ao Estado que atletas de bom relacionamento com a CBC não tiveram seus positivos divulgados. O procedimento permitia a manutenção de patrocínios e bolsas.

Marco Aurélio Klein, diretor da Secretaria de Alto Rendimento do ME e responsável pelo Bolsa-Atleta, só ouviu uma justificativa do presidente da CBC, José Luiz Vasconcellos, em meados de maio. Naquele momento, o benefício de Clemilda, referente a este ano, já estava suspenso. Mas ainda não se sabia que a atleta vinha recebendo desde 2009.

"Quando nós recebemos a documentação da CBC (sobre os casos de doping), fizemos uma avaliação e descobrimos a fraude", explica Klein. "O Vasconcellos me disse que (a emissão da carta) foi um erro administrativo."

Vasconcellos se pronunciou por e-mail e deu uma versão diferente. Informou que, em 15 de março, recebeu a lista dos ciclistas selecionados para receber a bolsa. "Conferimos os nomes e detectamos que a Clemilda Fernandes não estava apta a receber os recursos."

Três dias após a data informada por Vasconcellos, o ME publicou reportagem em seu site a respeito do Bolsa-Atleta. A personagem é Clemilda. No texto, a ciclista agradece o reconhecimento, fala de sua rotina de treinos e diz que "a ajuda mensal de R$ 3.100 é indispensável (...)".

Afirma, também, que pretende disputar a Olimpíada de Londres, em 2012. Mas atletas que recebem suspensões superiores a seis meses estão proibidos de disputar os Jogos.

Klein não quis colocar em dúvida a lisura da CBC. "Não cabe a mim julgar. Para nós, era um documento que tinha fé. Esta é uma atitude inaceitável."

O diretor admite, também, que o ME não possui instrumentos suficientes para acompanhar a situação de todos os beneficiários - são 3.160 neste ano. "Contamos com a comunicação vinda das confederações."

O caso foi enviado para a Controladoria Geral da União (CGU), que notificará a atleta. Assim que receber o aviso, Clemilda terá 60 dias para devolver o dinheiro. O Estado tentou falar com a ciclista, que vive em Goiânia. A informação dada pela mãe da atleta é de que ela viajou e só retornará no fim do mês.

NÚMEROS

68,4

mil reais é o valor que a ciclista Clemilda Fernandes terá de devolver aos cofres públicos

2

anos de suspensão recebeu a atleta em julho de 2009, ao ser pega em exame na Volta da Itália

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.