Pelé é um tema desagradável

Falar sobre Pelé sempre foi um aborrecimento para mim. Acho chato, desagradável. Para piorar, agora me vejo obrigado a escrever uma coluna sobre o tema. Afinal de contas, no sábado, também conhecido como depois de amanhã, Edson Arantes do Nascimento completa 70 anos. Esta semana, portanto, tem sido de doer, pois, quando o número é cheio (20,30,40), tudo quanto é programa, revista, jornal, site passa a elaborar as famosas "especiais" sobre o tema. Impossível evitar, parece que sou perseguido por ele.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Incomoda-me absurdamente assistir às mesmas imagens. Lá vou eu, com paciência, rever aquela matada de bola no peito, o lençol sobre o zagueiro sueco e o golaço sem deixá-la cair, na final da Copa do Mundo de 1958. Querem apostar quanto que também vão mostrar o gol de cabeça e o passe "açucarado" para que Carlos Alberto Torres definisse a goleada por 4 a 1 sobre os italianos, na final da Copa de 1970, que resultou na posse definitiva da Jules Rimet?

Pensa que acabou? Que nada. Até aqui falei apenas de parte da história na seleção brasileira. A isso, acrescentem as repetitivas cenas vividas com a camisa do Santos. Centenas de dribles desconcertantes, a milionésima exibição do milésimo gol, quando o mundo parou para assistir à cobrança de pênalti na partida contra o Vasco, no Maracanã, ou a história de que uma guerra foi interrompida na África apenas para que os santistas se apresentassem.

Como se não bastasse, ainda me deparo com aqueles que insistem em mostrar que Pelé era tão especial como jogador que chegava a ser genial mesmo quando errava. Vai ser um tal de mostrar a finta de corpo que deu no goleiro uruguaio Mazurkiewicz para, na sequência, desperdiçar o gol que parecia fácil. Ou o pretensioso chute, lá do meio-campo, com o qual tentou encobrir o goleiro Viktor, da Checoslováquia. Os dois lances ocorridos na campanha do tri.

E não fica apenas nas imagens. Há também as intermináveis teorias sobre Pelé. As pessoas não se dão por satisfeitas em dizer que ele foi o maior jogador de futebol da história, o que lhe rendeu o título de Atleta do Século. Vão além, garantem que nunca existirá outro como ele. Ou que Deus nunca agraciou outro ser humano com dom tão específico, tão bem acabado. Ahh, isso sem falar daqueles que babam o ovo ao comentar sobre a inteligência como atleta, dizendo que ele antevia as jogadas. Ou da força e do preparo físico privilegiados. Em suma, um atleta completo.

Ainda tenho de me deparar com os mesmos depoimentos de ex-jogadores, muitos deles craques do mais alto nível e companheiros da época de Santos e seleção brasileira, que confirmam cada uma dessas afirmações. "Pelé é de outro planeta", dizem eles.

Tudo muito irritante, sobretudo para um cara como eu, que nasceu em 1971 e, portanto, não viu Pelé jogar. Aí está meu maior desgosto. Nunca vou me contentar apenas com imagens e histórias. Para mim, o tema "Pelé" será uma eterna frustração. Parabéns Rei do Futebol.

Capitalização. Como vimos, o Santos teve o maior jogador e o maior time de todos os tempos, mas nunca soube capitalizar sobre isso. Para começar a corrigir esse deslize histórico, a diretoria trabalha em projeto audacioso: quer transformar Pelé em uma espécie de garoto-propaganda de um fundo internacional de capitalização. É verdade que a negociação é difícil, afinal de contas trata-se de um dos maiores ícones do marketing esportivo. Se der certo, porém, tem tudo para colocar o clube em um novo patamar econômico.

Libertadores 2011. No curto prazo, a expectativa é de que os trâmites burocráticos sejam superados até o fim do ano e o fundo de R$ 40 milhões, já garantidos, finalmente comece a operar. O clube já tem planos bem definidos para esse dinheiro. Com o montante vai cumprir acordos com os atuais craques Neymar e Ganso, contratará o treinador experiente e vitorioso e montará o grupo com o qual pretende vencer a Libertadores e o Mundial do próximo ano.

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