Pênaltis verbais

A expressão oral no mundo do futebol quase só se dá na forma de cotovelada. Mesmo pessoas consideradas intelectuais, como Luiz Gonzaga Belluzzo, erram feio o tom e dão contribuição inversa à esperada (e não só pelos palavrões: Belluzzo também disse que a culpa do fiasco palmeirense no ano passado foi por culpa de Muricy Ramalho e que o time deste ano era melhor). Na hora de falar e mesmo escrever, a maioria comete pênaltis verbais: derruba na área o bom senso e a lógica e vai com a ética para o vestiário. "No calor da hora, a razão evapora." E os exageros, insultos e calúnias saem desmedidos, como se o Brasil não tivesse leis.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2010 | 00h00

O feriado da República foi repleto de exemplos. A meu ver, o jogo entre Corinthians e Cruzeiro teve arbitragem ruim, que cometeu diversos erros de lado a lado e foi basicamente como a maioria das arbitragens brasileiras: deu faltas e cartões demais e, no saldo final, favoreceu o time da casa. Mas daí a ter certeza absoluta a respeito de cada um dos lances e acusar o juiz de fazer parte de conspiração vai uma imensurável distância. Eu, por exemplo, acho que houve pênalti em Thiago Ribeiro no primeiro tempo, quando chega à bola antes de Júlio César (e não no segundo, quando o goleiro espalma com as duas mãos) e cai porque não tem como seguir correndo. E acho que houve pênalti, sim, em Ronaldo, que dá um pulo, domina a bola no peito e sofre carga por trás; Gil tromba com suas costas, passando longe de qualquer disputa de bola com a cabeça. Se tivesse sido em outra época do ano, em outro minuto da partida e em outra região do campo, provavelmente não seria contestado. Mas ouvi muita gente boa discordando de ambas as opiniões. Como condenar o juiz peremptoriamente? Ou afirmar que em outros países não teria feito o mesmo?

Pior é que pessoas públicas venham ao microfone e soltem xingamentos e leviandades como se fossem imunes a qualquer sanção. O jogador Roger disse que esteve no Corinthians campeão de 2005 e sabe como são as coisas. Mas naquele ano o que aconteceu foi escandaloso: o pênalti claríssimo em Tinga, do Internacional, que não foi assinalado. Não foi um lance duvidoso, uma decisão tecnicamente difícil. Além disso, o Corinthians também foi vítima de diversos erros neste ano, como aqueles gols anulados do mesmo Ronaldo contra o Guarani. Para afirmar que "comprou o campeonato" em ano de centenário, é preciso ter provas consistentes.

Outro exemplo do estilo boquirroto dominante é esse "debate" sobre se os times que não têm chance devem entregar os jogos para os adversários de seus rivais, como São Paulo e Palmeiras para atrapalhar o Corinthians. É claro que não devem, assim como a seleção masculina de vôlei não deveria ter entregue o jogo para a Bulgária no Mundial. Profissionais dão o melhor em qualquer oportunidade e enfrentam o adversário que for. Aí vem o comentarista metido a malandro e diz que os times vão entregar, sim, porque é isso que acontece "na prática". Ainda assim, não deveriam. Ou o futebol para de se colocar numa esfera moral própria, como se não pertencesse à sociedade, ou os árbitros vão continuar dominando o papo furado pós-jogo.

Toda essa histeria, aliás, tira o foco da compreensão maior do que está acontecendo no campeonato. O Corinthians não é líder porque o juiz deu o pênalti em Ronaldo, mas porque tem bom elenco, que foi melhor que o Cruzeiro no segundo tempo, e principalmente porque seu principal adversário, o Fluminense, mais uma vez tropeçou. Empatou com o Goiás, depois de sair perdendo, e ainda quase levou um gol no final, em chute de Felipe. Mostrou as fragilidades na defesa e a falta que Emerson e Fred fizeram desde que se contundiram (Fred voltou, ainda sem ritmo, e mesmo assim foi mais perigoso que Washington). Como escrevi, este campeonato tem sido pródigo em pontos perdidos para adversários bem inferiores. A qualidade técnica da nova geração tem deixado muito a dever. E não é uma eventual vitória num amistoso contra a Argentina de Messi, hoje, que vai provar o contrário.

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