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Antero Greco
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Pequenas e grandes proezas

O mundo, com sua vastidão, não passa de povoado, dizem os italianos. Não importa se o sujeito more em Roma, Madri, São Paulo, Nova York ou na mais remota e minúscula aldeia perdida entre as montanhas. Os sentimentos, grandes ou pequenos, se tornam idênticos, têm o mesmo peso e valor para o habitante local. O universo é o que está à nossa volta.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2014 | 02h07

Essa constatação da sabedoria popular se aplica a qualquer atividade humana - incluído o futebol. Por exemplo: por aqui, e certamente por dezenas de países que curtem o joguinho de bola, se falou e se acompanhou com atenção o duelo entre Real Madrid e Barcelona. As duas equipes viraram multinacionais do esporte, com as legiões de astros domésticos e estrangeiros. Por isso, há muito extrapolaram as fronteiras da Espanha e natural que tenham seguidores na Groenlândia, na Terra do Fogo, na Tasmânia.

Também vi o jogo, a maior parte dele - mas só depois de encerrado o clássico Santos x Palmeiras. Reuniu o que se espera de espetáculo memorável: casa cheia, gols à vontade, pênaltis, reclamações contra a arbitragem, expulsão, virada, derrota do time da casa e um gringo, dos rivais, a brilhar - no caso Messi com três dos quatro gols do Barça. Valeu o ingresso para quem esteve lá e para quem curtiu pela televisão.

Não há como fugir da realidade: os torneios internacionais fincaram raiz também no Brasil, antes conhecido como a terra do futebol, e juro que ouvi gritos na hora dos gols, dos dois lados. Fora os comentários acirrados nas redes sociais: quem a favor, quem contra Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar. Coisa quente, de Fla-Flu, de Gre-Nal.

O resultado foi magnífico para os catalães, que voltam a sonhar com a possibilidade de título. A queda do Real foi comemorada ainda pela turma do Atlético de Madrid, pelas diferenças paroquiais e por mantê-lo também na corrida pela hegemonia nacional. Competição aberta e que promete na reta final.

Grande proeza do Barcelona. Agora, porém, chego à segunda parte. Fora o duelo em si, variado, estrelado, produto de globalização, fiquei de olho mesmo em Neymar, queria ver como se sairia nesse desafio. E por quê? Porque, como brasileiro, ele me interessava mais. Com a proximidade do Mundial, desejo vê-lo em forma, torço para que brilhe. Messi e Cristiano são brilhantes, mas estrangeiros, não jogarão na seleção (podem ser ameaças pra ela, sei). Só que não são do nosso pedaço. Olhar crítico para eles, claro. No entanto, sem veemência, de parca emoção.

E Neymar não esteve lá essas coisas, mais uma vez. Parece deslocado, ao ser largado na direita, não arranca como se espera. Perdeu divididas, errou passes. Ainda assim, teve participação decisiva ao sofrer o pênalti que provocou a expulsão de Sergio Ramos, propiciou gol de Messi e influiu no resultado. Depois, foi substituído. Neymar é caso a ser abordado numa próxima crônica.

Madridistas a esta hora devem chorar pitangas pelo tropeço, por supostos erros do apito. Os barcelonistas vibram. Uma tragédia incomensurável para uns, uma euforia estratosférica para outros. Normal, da vida.

Mas, meu caro amigo, seria menor ou menos válida a satisfação do torcedor do Grêmio, que também teve um jogador a alcançar tripleta? (Recuso-me a escrever hat-trick, é cisma minha.) Barcos marcou todos nos 3 a 0 sobre o Juventude e caiu nos braços da galera. O corintiano não deve exultar com os três de Romarinho, nos 3 a 0 sobre o Sorocaba? Ou os santistas devem ficar mudos, porque o time deles bateu o Palmeiras por 2 a 1 fechou como o melhor da primeira fase do Paulistão?

Como?! Não há comparação entre o que ocorreu no Bernabéu e nestas bandas?! Se nos ativermos à qualidade de futebol, não. Nem sou tonto de dizer o contrário. À maneira de Mano Menezes, "com milhões na mão para contratar é fácil". Se nos fixarmos na emoção - e isso que vale -, Messi, Barcos, Romarinho animaram o domingo dos fãs dos respectivos clubes. Fizeram a parte deles. Anonimato e sucesso são relativos.

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