Perda financeira de dezenas de milhões de euros

O rali Lisboa-Dacar (mais conhecido por seu nome original Paris-Dacar) não começará hoje. É perigoso demais. Cabe uma pergunta: será o último? Haverá algum dia um outro "Dacar"? E uma segunda pergunta, com reticências e a meia voz: o rali não poderia mudar de continente, se transportar para um outro local mais seguro? Por que não para a América Latina? Este ano, o itinerário da corrida mítica duraria 15 dias, com oito etapas na Mauritânia, país à beira do Atlântico, mas cuja maior parte se espalha pelas areias e pedras do mais belo deserto do mundo, o Saara.Ora, muito recentemente, a Mauritânia, antes renomada pela sua tranqüilidade, se viu infestada pelo mais infame flagelo de nosso tempo: o terrorismo islâmico. Em 24 de dezembro, quatro turistas franceses foram abatidos friamente. Pensou-se que aquilo fosse obra de ladrões. Ledo engano. Tratava-se de terrorismo e na sua variante sinistra, a Al-Qaeda. Esta é a primeira vez, depois de 30 anos de glória, que o rali é cancelado. A decisão não foi fácil. Havia coisas imensas em jogo: a corrida colocaria nas pistas 900 veículos, uma caravana de 2.500 pessoas, uma organização gigantesca. O mundo inteiro, a cada ano, acompanha a prova com paixão.O rali mobilizava quantias vultosas - contribuição dos países atravessados, dos patrocinadores, das marcas de carros ou de motos.Dezenas de milhões de euros. O cancelamento da corrida é um desastre financeiro. Duas cidades de Portugal que figuram no itinerário haviam feito investimentos ruinosos. Elas estão processando o "Dacar" por perdas e danos. Outras ações judiciais poderão surgir.E a grande questão, a questão proibida: este "Dacar" será o último? A cada ano, os perigos crescem. Muitos países do deserto estão infectados pelo terrorismo. A cada ano, o número de países se estreita. Já estão fora de questão Argélia, Sudão, Mali. O Quênia volta ao pelotão de desertos proibidos.Segundo erro do "Dacar": acontece de crianças excitadas pelo espetáculo assumirem riscos e serem esmagadas, mortas por um carro ou uma moto. As precauções mais cuidadosas não conseguiram erradicar esses dramas. Mas ele também traz benefícios: receitas polpudas para os países atravessados, seja diretamente em dinheiro, seja atraindo o turismo estrangeiro. Ao mesmo tempo, uma festa incomparável é oferecida a populações muito desfavorecidas.Mas existe um "pecado original" bem mais profundo. Para muitos, o rali maravilhoso era um espetáculo que o Ocidente rico se oferecia, salpicando com sua soberba, sua técnica, suas lantejoulas e seus babados os países malditos do deserto. A "sociedade de consumo", com sua voracidade, seu egoísmo, sua vaidade, e, às vezes, sua vulgaridade, se proporcionava alguns arrepios dando uma voltinha pela "sociedade da miséria".Essa crítica já antiga se radicalizou há alguns anos com a ascensão dos radicais islâmicos. Estes vêem na bela corrida das areias uma nova investida do "colonialismo", e até do "ocidentalismo", por que não da "civilização cristã", nos rincões outrora colonizados e, com freqüência, muçulmanos.A irrupção de matadores da Al-Qaeda no deserto da Mauritânia e o cancelamento do rali decidido ontem estão na linha direta dessa pregação. * Correspondente em Paris

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

04 de janeiro de 2008 | 00h00

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