Perdas

Muller e Mike Tyson. O que um tem a ver com o outro? Quase nada, fora o fato de que perderam praticamente tudo o que tinham. A semana que passou trouxe-me a assombrosa notícia. Muller, grande craque do futebol brasileiro, craque de verdade, com títulos que poucos jogadores são capazes de ostentar, presença marcante na seleção, jogador que vestiu a camisa de clubes da maior importância como o São Paulo, talvez em seu momento mais glorioso, como o Palmeiras de Rivaldo e Djalminha, e, já em fim de carreira, mas ainda um mestre, como o Cruzeiro. Jogou também fora do Brasil, onde certamente ganhou bom dinheiro.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Muller sempre foi uma figura um pouco excêntrica com várias passagens estranhas em sua vida, mas não muito mais do que a média dos grandes jogadores de futebol subitamente enriquecidos. Era mais folclórico que outra coisa.

Uma noite, muitos anos atrás, deparei com ele num restaurante conhecido ocupando uma mesa com vários italianos, e era ele quem dominava a conversa, num italiano pitoresco, mas fluente e desenvolto. Ultimamente reapareceu como comentarista e vi que continuava seguro de si e com a personalidade que mostrava nos campos intacta. Falava do que via em campo com clareza e propriedade. De repente não o vi mais, mas, não sei por que, sabia que, mais dia menos dia, ainda iria vê-lo de novo.

Jamais pensei, porém, que fosse nas circunstâncias em que se deu. Com dramáticas reportagens onde ele mesmo confessava que estava quebrado, falido, sem nada e morando de favor na casa do ex-lateral Pavão, seu amigo dos tempos do São Paulo.

Somos sempre tentados a achar que não é possível perder tudo, quando a quantia é grande. Mas é. E bem facilmente. Vemos o dinheiro entrar, mas temos grandes dificuldades para vê-lo sair. Ele entra visível e sai invisível e sorrateiro. Estava pensando no Muller quando chega a revista RG, que a corintiana editora Phydia de Athayde me mandou com recomendação para ler a matéria sobre Mike Tyson. Como sempre fui fã do Tyson, li. E me vi diante do mesmo fenômeno: um homem que ganhou fortunas e perdeu tudo. Nada a ver com a vida do Muller, claro. Muller sempre foi uma figura simpática, sorridente e solar. Tyson, ao contrário sempre foi mais sombrio, duro, às vezes inexplicavelmente violento. Também não se compara o que um e outro ganhou.

As lutas de Tyson renderam 400 milhões de dólares. Sua parte, portanto, foi infinitamente maior que tudo o que Muller ganhou na vida. E não sobrou nada. Ou quase nada. A reportagem mostra que ficou uma casa num condomínio, onde Tyson se isola com a família, evitando sair, evitando qualquer contato, tentando criar um mundo à parte, com o quase nada que tem.

Essas são as semelhanças entre os dois. Tyson tem 44 anos. Muller tem 45. As montanhas de dinheiro foram dilapidadas em apenas dez, quinze anos. Muller vai sobreviver. Apesar de tudo vai continuar vivendo e finalmente se aprumar de novo e eu vou torcer muito para isso aconteça. O que não quer dizer que tenha aprendido a lição.

Conselhos. Certamente este momento da coluna seria ideal para bons e sensatos conselhos aos mais jovens, para chamar sua atenção para esses exemplos trágicos. Mas não faço isso porque sei que é inútil. Não vai adiantar nada.

O que acontece com Muller e Tyson é um clássico dos esportes, do mundo do espetáculo, dos negócios, da vida enfim. Um clássico porque se repete sem cessar. De tempos em tempos ressurge.

Nada aprendemos com a experiência alheia. Um certo pessimismo pessoal me diz que nada aprendemos nem com nossas próprias experiências. Somos quase sempre condenados a repetir os mesmos erros. Poderia alinhavar uma série de jogadores que vão percorrer inevitavelmente a trajetória percorrida pelo Muller.

O doutor Pedro Nava, que era um bom médico e um escritor extraordinário, dizia que a vida é como um carro equipado só com faróis traseiros. Potentes faróis que iluminam, da estrada, só o que fica para trás, o passado. O que está diante de nós permanece no escuro, aberto aos mesmos erros. Os faróis nos mostram tudo o que fizemos de errado. E é só.

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