Perigo da paixão

Lembro-me perfeitamente da conversa que tive em 2010 com pessoa influente que trabalha na CBF. Na época, a seleção brasileira acabara de ser eliminada da Copa pela Holanda e o torcedor do Flamengo ainda se vangloriava pelo título brasileiro de 2009, conquistado meses antes. "Pois é, veja como é o futebol. Nós (seleção) fizemos tudo certo e perdemos. O Flamengo fez tudo errado e ganhou.''

WAGNER VILARON, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2012 | 03h05

A frase é exagerada, pois ninguém é campeão sem méritos ou eliminado sem defeitos. Mas confesso que, mesmo sem acompanhar as entranhas e o dia a dia, acho interessante analisar os bastidores do futebol carioca, especialmente Flamengo e Fluminense. E antes que os fiscais de plantão trombeteiem que os fatos e análises citados adiante poderiam dizer respeito a 99% dos clubes, digo que concordo, embora no Rio pareçam mais evidentes, até pelo altíssimo poder de repercussão do futebol carioca.

O Flamengo, a cada polêmica, afasta a esperança que temos de um dia ver sua espetacular marca causar calafrios nos adversários quando o assunto é administração. Entra ano, sai ano, entra presidente, sai presidente, a história é sempre a mesma. O ambiente confuso, no qual o amor ao clube está presente em todos os discursos, mas distante da maioria das ações, faz com que a boa intenção sucumba aos vícios e interesses.

A necessidade de agradar a várias alas políticas da Gávea é tamanha que trava a administração. Esta constatação tem feito com que este jornalista passe a considerar plausível um pensamento que, até pouco tempo atrás, achava absurdo: há pontos positivos no rebaixamento. Andrés Sanchez conseguiu pacificar o Corinthians porque, ao cair para a Série B, todos se afastaram. Ele pôde, então, tocar do jeito que achava melhor. Espero que o Fla não precise deste remédio.

As atitudes da presidente Patrícia Amorim, a quem respeito profundamente, na contratação de Vagner Love mostra o tamanho do problema. Primeiro que soa estranho anunciar um negócio como este no momento em que o grupo de jogadores, capitaneado por Ronaldinho Gaúcho, ameaçava rebelar-se por causa do atraso no pagamento. Segundo que só aumenta a desconfiança de que o negócio foi fechado apenas para amansar o torcedor após a perda de Thiago Neves para o Fluminense. Ou seja, decisões tomadas com base na emoção. Pobre cofre rubro-negro.

O Fluminense tem deixado seus torcedores felizes nas últimas temporadas por contar com elencos sempre listados entre os melhores do País, o que fez o clube chegar a vários momentos importantes. Talvez o torcedor comum, aquele que só pensa em mais uma peça na sala de troféus e no sarro que possa tirar dos rivais, esteja satisfeito. Mas a parte da torcida mais crítica, que vê o clube refém de um empresário apaixonado que, a qualquer momento, pode tirar o time e, pior, o dinheiro de campo, estaria tranquila?

É evidente que o patrocinador busca títulos para aumentar sua visibilidade, ganhar mercado e engordar os cofres. Não há pecado nisso. Caberia aos dirigentes das Laranjeiras exigirem algo a mais. É preciso que dinheiro que mantém craques no time principal proporcione também o famoso legado ao clube. Mas aí é pedir mais razão e menos emoção. Deixa pra lá!

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