Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

Pernambuco investe na formação e se torna um novo polo do atletismo no Brasil

Projetos desenvolvidos em cidades do interior do Estado descobrem e preparam jovens atletas para competir em várias modalidades; resultados já começam a aparecer

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 05h00

Com clubes de atletismo organizados a ponto de conseguirem atrair patrocínios públicos e privados, o Estado de Pernambuco vem se firmando como um novo polo da modalidade no País. Para especialistas, a interiorização dos projetos, que garimpam talentos fora da capital, é um dos diferenciais. O resultado é a descoberta de uma nova geração de atletas com potencial para disputar os Jogos de Paris em 2024.

Nubia de Oliveira Silva é especialista nas provas de meio-fundo (800m e 1500m) e fundo (300m até a maratona). Medalha de prata nos 10 km do Campeonato Pan-Americano e também do Sul-Americano de cross country (corrida ao ar livre com obstáculos naturais, como troncos, terra batida e riachos), a jovem de 20 anos é uma das promessas do atletismo brasileiro.

Para conseguir o índice para o Mundial Universitário na China, ela mostrou uma de suas principais características, que são comuns em atletas europeus e africanos: resistência ao longo das provas e a velocidade na reta final, passando de fundista a velocista.

Nubia vive e treina em Jaguarari (BA), mas optou por representar a Associação Petrolinense de Atletismo (APA), clube localizado no sertão pernambucano, a 712 km do Recife. “Mesmo estando entre as melhores do Brasil, ela não conseguia passagens para os torneios nacionais. Encontramos esse apoio em Pernambuco, que está à frente dos outros estados no Norte e Nordeste”, opina Antônio Ferreira Bonfim Filho, o Ferreirinha, técnico de Núbia.

Hoje, a APA é uma das poucas equipes de atletismo do País certificadas pela Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania. A razão são as boas práticas de organização e governança. Com essa certidão, a APA aprovou em 2018 - e renovou em 2021 - um projeto baseado na Lei de Incentivo ao Esporte para captação de R$ 860 mil para compra de materiais esportivos, preparação de alto rendimento e viagens. Quem apoiou foi a Bayer Brasil. No acordo, 1% do valor do imposto devido pela empresa foi direcionado à APA.

A associação possui cerca de 300 atletas, dentre eles 45 paratletas. “A partir da profissionalização da gestão e da necessidade de atender aos pré-requisitos de uma boa governança, nós tornamos a APA uma referência olímpica e paralímpica, com grande impacto social no Vale do São Francisco”, diz o diretor Natanael Pereira Barros.

De acordo com a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), esse é o projeto de atletismo com mais recursos do Brasil. “Nós identificamos há algum tempo o potencial do atletismo no Nordeste, principalmente no sertão. Pernambuco vem tendo um destaque especial”, avalia Wlamir Motta Campos, presidente do Conselho de Administração da Cbat.

O próximo passo da APA é mais ambicioso: a entidade articula com a prefeitura de Petrolina a construção da primeira pista oficial de atletismo no interior do Nordeste. A intenção é adquirir um terreno por meio de doação ou concessão. Hoje, as provas oficiais são disputadas apenas nas capitais onde se concentram as pistas de nível II de acordo com a classificação da World Athletics, entidade que comanda o atletismo mundial.

Outra revelação do atletismo pernambucano vem de Pesqueira, distante 200 quilômetros do Recife, já no agreste pernambucano. Aos 20 anos, Maria Lucineida da Silva Moreira começa a despontar nas provas adultas de meio-fundo e fundo. A paraibana de Monteiro foi a campeã dos 10 km do Campeonato Pan-Americano de Cross Country, superando a própria Nubia. Foi o primeiro ouro para o Brasil na história da competição na prova feminina.

A principal diferença que Lucineida identifica entre o atletismo pernambucano e de outras regiões é o apoio do governo por meio do programa Bolsa Atleta (estadual e federal). Em Pernambuco, o benefício varia entre R$ 1 mil e R$ 2,5 mil de acordo com os resultados.

Hoje, Lucineida não tem patrocinadores pessoais. Por isso, faz uma ressalva. “Dentre os tantos desafios que são não exclusivamente meus, está a falta de infraestrutura e de material. Quando se atinge um nível superior também é necessário melhorar a qualidade do equipamento e material utilizado. O apoio financeiro dos programas são insuficientes.”

Lucineida compete pela Associação de Apoio às Pessoas com Deficiências (AAPD), que prepara atletas com e sem deficiência em dez cidades do interior por meio do projeto “Atletismo Campeão”. Hoje, são quase 200 inscritos, 40 deles no atletismo. Além do apoio dos programas estaduais, como o Bolsa Atleta de Pernambuco, e o Passaporte Esportivo, que custeia as viagens das delegações, o projeto tem o amparo do Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau), que oferece bolsas de estudo e moradia para os atletas. Hoje, são 30 bolsas integrais. 

No projeto, os recém-formados dedicam dois anos para o desenvolvimento do atletismo na sua cidade de origem. Com isso, as cidades do interior também se tornam “centrinhos” de atletismo. “Anos atrás, o aluno do interior que se destacava ia para Recife. Agora, algumas cidades já oferecem condições para que não precise se deslocar para a capital, pois também investimos na capacitação dos técnicos de atletismo”, afirma o professor Abraão Nascimento, criador do projeto e professor da Uninassau.

'CENTRINHOS' DE ATLETISMO

Especialistas apontam que a interiorização do projeto é uma das razões do avanço dos talentos pernambucanos. “O porcentual de atletas com potencial é igual no mundo todo. O desafio é encontrar esse talento e desenvolver esse potencial. Isso é bem feito em Pernambuco. Ainda não é o ideal, mas é um dos melhores do Brasil”, opina Cleberson Lopes Yamada, especialista em atletismo e técnico nos Jogos do Rio.

O clube também tem histórias de superação, como a de Mirelle Leite da Silva, descendente da etnia indígena Xukuru. Depois que seu pai foi assassinado, ela assumiu, como a segunda mais velha de nove irmãos, a responsabilidade de cuidar dos mais novos, enquanto sua mãe trabalhava como diarista.

Quando começou a se destacar no atletismo estadual, engravidou aos 15 anos. Foi mãe, atleta e também diarista. No ano passado, aos 19 anos, Mirelle foi campeã brasileira sub-20 dos 3000m com obstáculos. Seu filho, Lucas Gabriel, está com três anos. Mirelle é a atual campeã brasileira, pan-americana e sul-americana dos 3000 m com obstáculos até 23 anos. “O atletismo significa muitas coisas boas, me proporcionou uma vida melhor, mesmo treinando sem as condições adequadas. Quero dar uma vida melhor para a minha mãe e o meu filho no aspecto pessoal e poder treinar bem, ficar entre as melhores”, diz.

Embora muitos medalhistas nos campeonatos mundiais das categorias de base tenham dificuldades no adulto, as conquistas mudaram a maneira como os competidores olham para os pernambucanos. “Quando começamos, em 1989, nós éramos os baianos e os paraíbas. Hoje, nós somos os pernambucanos, respeitados como treinadores, atletas e clubes. Essa é uma mudança de paradigma. É a elevação da autoestima dos pernambucanos. Não é à toa que muitos atletas levam a bandeira do estado para o pódio”, conta o professor Abraão Nascimento.

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