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Personagens de um jogo

O lance está no youtube, infelizmente. Visto no dia seguinte não é mais o lance. Parece mais fácil, já é passado, a vida cotidiana passou por ele com suas miudezas. Por isso é preciso relembrá-lo. E foi apenas um passe. A bola chegou nos pés do Gaúcho e dali imediatamente partiu.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2013 | 02h05

Ela, a bola, tinha que cair num ponto preciso, que não desse tempo para o goleiro chegar, mas que, ao contrário, chegasse nos pés do avante e o encontrasse livre. Livre por alguns exatos centímetros, porque quase junto com ele vinha um defensor. Além disso, tinha que atravessar uma profusão de pernas de defensores bem colocados, que provavelmente entraram em campo com a missão de evitar que, principalmente o Gaúcho, fizesse das suas.

O mecanismo, em ação, fez com que se cumprissem uma série de condições que só se cumprem nas ciências exatas. A jogada foi mais matemática do que futebol. Incrível. Um enxadrista para fazer um lance equivalente teria muito mais tempo. O Gaúcho não precisou. Sua cabeça funciona como um enxadrista enlouquecido que executa e pensa ao mesmo tempo. Um lance como esse, para mim, é o jogo. Alguns gostam do gol, outros do drible, outros ainda da simples vitória. Eu gosto da inteligência. Meus ídolos foram Jair Rosa Pinto, Didi, Gerson, Dicá, Zenon, Djalminha e, por que não?, Paulo Henrique Ganso, entre outros que esqueço.

O Gaúcho tem muita coisa deles todos e mais outras de outros grandes craques. Feito o gol, poderia sair de campo, levado por guarda de honra, inclinando-se para agradecer os aplausos como num teatro, coisa que, aliás, fez, quando executou algo um pouco menos complexo que foi a cobrança do terceiro pênalti. Mas naquele lançamento, aos três minutos, já tinha feito mais do que sua parte no espetáculo. Depois os argentinos acordaram e perceberam que não poderiam deixar o Gaúcho jogar. Foi feita uma marcação implacável, mas era tarde. Além do Gaúcho outro jogador que me chamou a atenção, como sempre, foi Richarlyson. É um jogador especial. Joga em qualquer lugar.

Antigamente havia preciosos jogadores assim: os chamados coringas. Pareciam nunca se firmar e estavam, no entanto, sempre lá. Richarlyson começou, se não me engano no Santo André, como atacante. No São Paulo jogou no meio de campo e na defesa. No Atlético até na zaga. Sempre bem. Muricy, que sabe de futebol, gostava muito dele. O que me chama a atenção, no entanto, é a sua personalidade. Envolveu-se numa questão há alguns anos, que ele mesmo criou, e que teria, num ambiente como o futebol brasileiro, acabado com a carreira da maioria dos jogadores.

Execrado por torcedores nunca se vergou, nunca se explicou, e continua jogando sua bola altivamente. Com uma personalidade, às vezes, até perigosa. Na hora da cobrança de pênalti contra os argentinos, quem estava lá? Richarlyson. Nessa hora em que muitos jogadores se eximem, afinam, como se diz por aí, ele se meteu no meio e fez questão de bater. O pior é que bateu pessimamente, mostrando que talvez nem seja batedor. Mas não tem medo. É por isso que gosto dele. Se as coisas tivessem corrido mal para o Atlético a casa ia cair em cima dele, porque, quer queira quer não, é um jogador visado. Nem isso o fez desistir da cobrança. É um jogador que merece o maior respeito.

Finalmente, o Cuca. O estado em que fica durante e depois das partidas, faz pensar que deveria haver um médico de plantão só para atendê-lo. O Cuca é um emotivo. Deve sentir profundamente a maneira como foi tratado por alguns imbecis, que não tendo o que dizer, dizem o que ouvem por aí. Sempre o pior do que ouvem. Todos sabem o que se falou de Cuca. Mas isso mudou. Acho que ninguém ousa dizer, hoje, que ele não é um técnico vencedor, um dos melhores do Brasil. Os imbecis foram vencidos pelos fatos. Só o Cuca parece acreditar que ainda deve provar alguma coisa.

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