Pete Johnson/The New York Times
Pete Johnson/The New York Times

Pesquisadores levantam dúvidas sobre alpinistas que escalaram as montanhas mais altas do mundo

Somente 44 pessoas alcançaram o topo de todos os 14 picos de mais de 8 mil metros do planeta

John Branch, The New York Times

24 de maio de 2021 | 20h00

Apenas 44 pessoas alcançaram o topo de todos os 14 picos de mais de 8 mil metros do mundo, de acordo com as pessoas que registram esse tipo de coisa. Mas agora elas dizem que talvez ninguém tenha alcançado nada.

A diferença gira em torno de uma questão atemporal - que agora está ganhando uma nova perspectiva: O que é um topo?

Ed Viesturs acha que sabe a resposta. Ele é um dos 44, o quinto a fazer tudo sem oxigênio suplementar, o único americano da lista. Em 1993, escalando sozinho e sem oxigênio nem cordas, Viesturs alcançou o “cume central” da Shishapangma, a 14ª montanha mais alta do mundo. A maioria dos escaladores dá a volta nesse cume, dizendo já é o suficiente.

Diante dele havia um estreito istmo de cerca de cem metros, um fio de navalha de neve que prometia uma queda para o esquecimento em ambos os lados. Do outro lado, se encontrava o verdadeiro topo da montanha, alguns metros mais alto do que o ponto onde ele estava.

Perigoso demais, Viesturs disse a si mesmo. E recuou. “Você pode deixar quieto ou pode não deixar quieto”, disse Viesturs. “E eu era um daqueles caras para quem, se o último prego do deck não foi martelado, não está pronto”.

Oito anos depois, Viesturs escalou até perto do cume da Shishapangma mais uma vez. Agora parecia factível. Com uma perna de cada lado - um cheval, ou cavalo, na linguagem do montanhismo - ele deslizou pelo istmo. Tocou o ponto mais alto da Shishapangma e voltou em relativa segurança.

Existe um topo. E o resto é o resto. Será que chegar perto já é o bastante?

Com mais intensidade que nunca, as revelações de uma equipe de pesquisadores respeitados trouxeram essa questão à tona, pondo atenção especial nas montanhas mais altas do mundo e nos escaladores mais aclamados.

Ao fazer uma pergunta simples - o que é um topo? - os pesquisadores estão levantando dúvidas sobre feitos passados e erguendo os padrões para os futuros.

Talvez eles estejam nos fazendo reconsiderar o que significa chegar ao topo.

"DIZER A VERDADECOMPLETA"

Numa pequena cidade no sudoeste da Alemanha, bem longe do Himalaia e das cordilheiras asiáticas do Karakoram, que abrigam todos os catorze picos da Terra com mais de 8 mil metros de altitude (26.247 pés), vive um homem de 68 anos chamado Eberhard Jurgalski. Ele tem uma barba branca e robusta e usa os cabelos presos num rabo de cavalo.

Jurgalski passou quarenta anos registrando as crônicas das subidas aos picos de 8 mil metros. Não escalou nenhuma dessas montanhas, mas é muito respeitado por compilar os registros daqueles que o fizeram. Está no grupo de pesquisadores que dão crédito às afirmações que deixam os outros famosos.

Ele pode dizer os nomes das várias expedições, as datas, os detalhes das rotas e se usaram oxigênio. Estudou fotografias, vídeos, coordenadas de satélite e relatos de alpinistas e testemunhas.

E agora ele tem algumas notícias chocantes: é possível que ninguém jamais tenha estado no verdadeiro topo de todos os catorze picos de 8 mil metros da Terra.

Alguns pararam no cume central da Shishapangma, não ousando escalar até o topo, como fez Viesturs. Alguns, sem querer, foram para o local errado na ampla crista do Annapurna. Alguns pararam num mastro plantado no alto do Dhaulagiri, o que os confundiu, fazendo-os pensar que ali era o topo. Alguns foram até o local mais famoso do Manaslu, para tirar selfies, sem escalar precária a crista escondida logo depois dali.

Poucos ou nenhum deles tentou mentir sobre suas realizações. Eles simplesmente não chegaram ao topo, dizem Jurgalski e outros. Pararam a poucos metros de distância, seja por acidente ou tradição.

Para se manter honesto, o montanhismo depende da integridade e do poder da consciência culpada. Nas expedições de alto nível, é responsabilidade do aventureiro provar o que ele afirma ter feito em alguns dos lugares mais remotos do mundo. A evidência de subidas importantes geralmente vem de uma combinação inexata de fotografias, selfies, coordenadas de satélite e testemunhas.

E a inexatidão deixa espaço para sussurros de dúvida. Por décadas, Jurgalski temeu que os padrões da cúpula da elite mundial estivessem caindo. Se ele é um guardião dos registros históricos, não tem a obrigação de rever e verificar sua precisão?

Muitos anos atrás, Jurgalski procurou a ajuda de alguns outros pesquisadores, entre eles Rodolphe Popier e Tobias Pantel, do Banco de Dados do Himalaia, e Damien Gildea, um explorador australiano.

Dissecando uma afirmação de cada vez, eles estão estudando todas as subidas principais, por meio de fotografias e relatos escritos, tentando colocar os alpinistas em locais precisos.

As revelações que então se desenrolaram deixam Jurgalski um tanto nervoso. Ele sabe que reputações e meios de subsistência dependem das reivindicações dos alpinistas. Dependem de sua lista.

“Sou fã de todos eles, você sabe”, disse Jurgalski. “Mas, quando há algo errado, eu, como cronista, como um cronista respeitado, preciso fazer questão de dizer a verdade completa”.

A reputação de Jurgalski também está em jogo. E ele sabe demais para deixar que o perto seja bom o suficiente.

Ele quer que o registro histórico reflita a precisão. Também quer estabelecer um padrão firme para as futuras gerações de alpinistas, uma expectativa do que constitui um topo.

“Não pode haver duas possibilidades”, disse Jurgalski. “Só uma. O topo não fica na metade do caminho, nem a 99% do caminho”.

A MONTANHA COMO METÁFORA

Parece simples, a ideia do topo. Cada montanha tem um. Existe um topo e tudo fica abaixo dele. Por definição, o topo é o ponto mais alto de uma colina ou de uma aspiração.

Mas o que significa exatamente chegar ao topo? É uma questão tão simples quanto cósmica, que certamente separará absolutistas e pragmáticos.

“O topo é importante”, disse David Roberts, alpinista e autor que escreveu dezenas de livros sobre expedições ao Himalaia, livros com nomes como Viesturs, Jon Krakauer, Conrad Anker e Alex Honnold. “Por que isso é tão importante? Porque é o objetivo máximo do montanhismo. É a meta que define a subida”.

Não existe um verdadeiro órgão que governe o montanhismo, nenhum árbitro sobre o que constitui um feito digno de adulação. Para os maiores montanhistas, é um mundo confuso, sujeito à satisfação pessoal e à ocasional revisão por pares. O feito é julgado por uma indescritível mistura de dificuldade, imaginação e estilo.

Nem sempre importa se o topo é atingido. Como Viesturs observou, o negócio se chama escalada, não chegada ao topo. O importante, muitas vezes, é o processo.

Mas o topo é uma realização rara e tangível na escalada, uma proposição de tipo sim ou não. Pode transformar humanos em heróis. Pode conferir fama e forjar reputações.

Falando em termos mais filosóficos, é algo que tem significado. Existe como a metáfora suprema da conquista, uma linha de chegada vertical que diz que você foi o mais longe possível. Não há lugar mais alto a se alcançar.

“O topo é um ideal a que podemos aspirar”, disse o alpinista Michael Kennedy, ex-editor das revistas Climbing e Alpinist, detentor de uma longa lista de realizações de alto nível no montanhismo.

Em 1997, ele escreveu um editorial para a Climbing intitulado ‘Perto só vale para granadas de mão’.

“Deixando de lado as questões de estilo, o sucesso é medido ao longo de um único eixo”, escreveu ele. “Ou você chega ao topo ou não chega. Não tem muito espaço para debate. Ou será que tem?”.

UM MAESTRO ENGANADOR

Dos 14 picos de 8 mil metros, “seis ou sete”, disse Gildea, têm topos claramente falsos. A diferença é de um ou dois metros verticais em alguns lugares e de não mais do que uns vinte em outros. Esses poucos metros verticais podem estar a uma hora de caminhada - ou a um perigoso escorregão - de distância.

O trabalho dos pesquisadores tem se concentrado, até agora, no Annapurna, no Dhaulagiri e no Manaslu. O Manaslu talvez seja o exemplo mais flagrante de deslocamento de topo. O plano de fundo da maioria das fotos do “topo” mostra claramente que tem mais montanha a escalar.

Em contraste, os problemas com o Annapurna e o Dhaulagiri são sobretudo de confusão, não engano. A crista superior do Annapurna pode ser atacada por diferentes direções. Uma vez lá em cima, é quase impossível discernir o ponto mais alto, mesmo sem fatores debilitantes como exaustão, vento forte e a escassez de oxigênio fazendo o cérebro morrer de fome.

“Passamos um tempo vagando pela crista”, disse Viesturs. “Tipo, vamos mais longe, vamos ter certeza de que chegamos. Será que aquilo lá está um pouco mais alto? Você pode gastar um pouco mais de tempo garantindo que está indo até aquela saliência ou caroço mais alto, em vez de só dizer, ‘Ah, já estamos perto o suficiente’”.

Esse espaço do “perto o suficiente” é a lacuna que Jurgalski e seus pesquisadores querem fechar. O Centro Aeroespacial Alemão forneceu a Jurgalski elevações precisas de toda a crista do Annapurna. O centro distinguiu dois pontos mais altos, separados por cerca de 30 metros. Os pesquisadores descobriram que cerca de metade das pessoas que ganharam crédito por alcançar o topo nunca chegaram a nenhum deles.

Eles encontraram problemas semelhantes no Dhaulagiri, em parte porque um mastro de metal plantado décadas atrás levou os alpinistas a pensar que aquele era o ponto alto. Hoje em dia, não existem desculpas para não encontrar o verdadeiro topo de uma grande montanha.

Guy Cotter atingiu os pontos mais altos de todos os sete continentes e alcançou sete dos picos de 8 mil metros, entre eles o Everest - cinco vezes. Ele é o executivo-chefe da Adventure Consultants, empresa de expedição fundada pelo ex-parceiro de escalada Rob Hall, que morreu no Everest em 1996, durante a tragédia do “ar rarefeito”.

“Existe uma diferença entre pensar que você está no topo e que não há mais aonde ir e saber que há mais a fazer e não ir mais longe”, disse Cotter. “Os padrões estão caindo”.

Cada montanha apresenta seus próprios desafios. Em Kangchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo, atrás do Everest e do K2, há uma tradição - que vem desaparecendo nos últimos anos, dizem alguns - de não tocar no topo. Viesturs está entre aqueles que disseram que pararam poucos passos antes.

A pesquisa sobre os picos de 8 mil metros vinha recebendo pouca atenção por alguns anos. Mas aí Gildea, um dos principais pesquisadores, escreveu um ensaio sobre o assunto, publicado no final do ano passado no prestigioso American Alpine Journal.

Provar precisamente quão alto alguém escalou anos atrás muitas vezes é impossível. Alguns escaladores estão mortos. Outros talvez não tenham incentivos para cooperar. O esforço pode provocar debates insolúveis, quem sabe até processos judiciais.

O medo de uma reação negativa é o motivo pelo qual Gildea e os pesquisadores retiraram todos os nomes do ensaio. É por isso que o texto está repleto de retratações e elogios.

“O lugar desses alpinistas na história está definido, e as questões sobre os detalhes topográficos precisos de certas escaladas não devem mudar a importância cultural de suas façanhas”, escreveu Gildea.

Esta também é a razão pela qual Jurgalski criou a ideia das “zonas de tolerância” retroativas. Os pesquisadores determinaram, pico a pico, o que seria considerado o topo - o que seria perto o suficiente.

“Mas não para o futuro”, disse Jurgalski. “Apenas para o passado”. Dos 44 escaladores que supostamente alcançaram o topo de todos os catorze picos, há sete com problemas flagrantes em pelo menos uma de suas subidas, disse Jurgalski. Isto reduziria a lista para 37, entre eles Viesturs (“Ed Viesturs é uma das pessoas que pelo menos sabemos que foi até alguns dos questionáveis, como Dhaulagiri, Manaslu e Shishapangma”, disse Gildea).

Mas não importa quão cuidadosamente seja expressa: a dúvida foi lançada sobre muitas das mais lendárias figuras do montanhismo. A sombra recai principalmente sobre Reinhold Messner, o alpinista italiano que foi o primeiro a reivindicar todos os catorze picos. Messner, a maior estrela e o maior showman da escalada, agora com 76 anos, parece ter muito a perder se alguma de suas realizações for diminuída por alguns metros.

Por chamada de vídeo, Messner disse que fez 31 tentativas nos picos de 8 mil metros, chegando ao topo dezoito vezes, todas sem oxigênio suplementar. Ele reconheceu a possibilidade de não ter alcançado exatamente o ponto mais alto de cada montanha. No Annapurna, disse ele, depois de escalar uma parede desde muito tempo considerada impossível, ele chegou à “crista plana do cume”, sob vento forte e pouca visibilidade.

“Se eles disserem que no Annapurna eu talvez tenha chegado a cinco metros abaixo do topo, em algum lugar desta crista longa, já me sinto totalmente bem”, disse Messner. “Não vou nem me defender. E se alguém viesse e dissesse, tudo que você fez não valeu nada? Bom, pense o que você quiser”.

UM NOVO LIVRO DOS RECORDES

Em última instância, Jurgalski imagina duas listas. Haveria uma nova, começando agora, para uma nova geração de alpinistas que indiscutivelmente alcançam o verdadeiro topo das montanhas mais altas do mundo. Com a tecnologia de hoje, não haverá muita discussão.

E Jurgalski manteria também a lista histórica, com aqueles 37 nomes. Seu plano é criar um sistema de pontuação. O verdadeiro topo de cada um dos catorze picos valeria 1 mil pontos; a pontuação perfeita seria 14 mil. Um alpinista poderia obter 980 pontos por chegar vinte metros abaixo naquela montanha ou 970 pontos naquela outra.

“Então podemos dizer que esta seria a lista histórica, com todas as reivindicações”, disse Jurgalski. “Quero esclarecer todas essas coisas antes de deixar este planeta”.

Muitas pessoas dirão que nada disso importa. Se a escalada em si não tem um propósito coletivo, como os diversos níveis de realização no alpinismo podem ser considerados conhecimento importante? Se escalar é uma jornada pessoal de descoberta, para que marcar pontos?

Mas há muita coisa em jogo. Existem as recompensas da fama e da adulação. Existem os acordos de patrocínio e os circuitos de palestras. Em alguns países, prêmios em dinheiro e empregos públicos aguardam aqueles que alcançam os picos mais altos.

E sempre há corridas para quem quer chegar primeiro - o primeiro escalador, a primeira mulher, o primeiro do país, o primeiro com deficiência. As motivações para escalar essas montanhas até podem ser pessoais, mas nem sempre são.

A ideia de Jurgalski de redefinir o livro dos recordes pode inadvertidamente iniciar uma nova competição, com novos incentivos para pegar atalhos - ou parar antes do objetivo final, seja literal e figurativamente. Quem será o primeiro a provar definitivamente ter chegado ao topo de todos os verdadeiros picos? / TRADUZIDO POR RENATO PRELORENTZOU

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