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Pindaíba Futebol Clube

Não é preciso viver intensamente o futebol para perceber que os clubes brasileiros estão quebrados. Até o São Paulo, que sempre buscou distância dos problemas plebeus, trabalha com previsão de déficit de R$ 53 milhões em 2015. Uns mais, outros menos, todo mundo está na pindaíba.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2014 | 02h02

A administração do futebol brasileiro é um tratado de incompetência. São raríssimos os dirigentes dispostos a apoiar qualquer proposta de restrição das despesas dos seus departamentos de futebol, conforme advoga o Bom Senso.

Os jogadores desejam estabelecer um teto, defendem controle do déficit financeiro por legislação específica. Apesar de serem definidos como "milionários do esporte", a tendência imediata é a redução dos salários da categoria. Os atletas profissionais estão preocupados com as finanças dos clubes, já os cartolas...

Se a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE) for aprovada, naturalmente o mercado será regulado por melhores práticas administrativas. Desde que a norma contenha punições para os insanos, como perda de pontos, rebaixamento e responsabilidade pessoal dos dirigentes nos rombos efetuados.

Tudo bem diferente de como foi aprovado na semana passada por Câmara e Senado, que toparam dissolver a dívida dos clubes sem nenhuma contrapartida.

À presidente Dilma Rousseff só resta vetar esse artigo da Medida Provisória 656, que trata da redução de impostos para importação de peças de aerogeradores.

A batalha é dura, a bancada da bola é muito forte. Essa turma não possui compromisso com o futuro, é feita de gente incapaz de avalizar qualquer medida saneadora, afinal muitos ajudaram a moldar a dívida. O futuro dura enquanto durarem seus mandatos. Os R$ 4 bilhões que os clubes tentam renegociar talvez seja muito dinheiro para você, mas para eles é problema do caixa do Governo.

Diante das manifestações contrárias à renegociação marota, diante da certeza de veto da presidente, o que teria levado deputados e senadores à coautoria desse absurdo? Seria apenas a crença na burrice perpétua?

O Congresso não pode ser assim tão ingênuo, não pode crer que a presidência seja capaz de destruir o canal de diálogo estabelecido com jogadores e dirigentes bem-intencionados.

O Flamengo, que hoje sofre nos gramados por destinar recursos para o pagamento de sua gigantesca dívida, foi muito claro na defesa da LRFE e de regras que impeçam o atual vale-tudo administrativo.

Sempre atenta e disposta a construir um mundo melhor, a CBF tratou disso no artigo 105 do Regulamento Geral de Competições, que funciona como estatuto dos campeonatos regidos pela entidade. Mas convém não confiar.

O problema é de Estado, e não do humor dos cartolas. Sabemos muito bem como são operadas essas relações, é na base do toma-lá-dá-cá. Tem de ser muito ingênuo para acreditar.

Toda essa história nos ajuda a entender os movimentos do mercado no mês de dezembro. O ambiente caótico propicia o aparecimento de super-heróis vestidos de treinadores. Por desconhecimento dos componentes do futebol e por culpa da quebradeira generalizada, a saída é apostar nos salvadores da pátria.

Os 7 a 1 impostos pela Alemanha na semifinal da Copa do Mundo realmente não serviram para nada. Foram absorvidos com naturalidade funesta. Os valores que determinam o rendimento do time de futebol e o funcionamento sadio do clube permanecem ignorados.

O ponto de partida e o ponto final são os mesmos, é o resultado. Chegar a ele, porém, continua sendo um mistério, um segredo que poucos dominam.

Há quem acredite que a solução é um contrabando legislativo.numa MP, como fizeram deputados e senadores. Tem gente disposta a tudo.

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