Piquet 60

A gente vem caminhando junto nessa vida. Na contagem do tempo, tenho estado um pouco à frente dele. O suficiente para vir lhe dizendo no início de cada década que não doía fazer 30, 40, 50 e, agora, 60. Na verdade, dói, mas deixa pra lá. É melhor pensar no que a experiência traz de bom pra quem viveu como se deve, que é simplesmente fazer aquilo que gosta. O sucesso foi consequência, mas ele teria vivido tudo do mesmo jeito qualquer que fosse o resultado. Um dia, me disse que a vida dele tinha tudo para dar errado, mas deu certo.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h04

Fiquei pensando no que o levava a pensar assim e conclui que o "tinha tudo para dar errado'' nada mais é do que consequência de ele não ter sido um sujeito que planeja as coisas. Ele apenas foi vivendo o que a vida lhe oferecia. Deve estar aí o segredo de tudo. Até quando chegou à Fórmula 1, onde teria que se programar um pouco mais, teve a sorte de cruzar com Gordon Murray, sujeito igual a ele.

Projetista genial, criativo, mas totalmente descompromissado. Disposto a viver o presente e só. Murray e Piquet se encaixaram em tudo, especialmente na coragem de assumir desafios que, aos olhos de pessoas comuns de um mundo preso a regras e tradições, como sempre foi a F-1, tinha mais a cara de arroubos da juventude. Bernie Ecclestone, então dono da Brabham, estava mais atento às negociações que levaram os times a uma tomada de poder na F-1 do que ao que ocorria dentro da sua equipe, que caminhava bem com as próprias pernas. Se estivesse mais presente, certamente não deixaria Gordon e Piquet realizarem metade das coisas que bolaram, inclusive o primeiro pit stop programado da história da Fórmula 1, que aconteceu no GP da Inglaterra de 1982 em Brands Hatch.

Em um dos programas Sinal Verde que eu fiz nessa época para a TV Globo, aparece o Bernie dizendo que na equipe dele as coisas funcionavam porque todos sabiam que ali mandava o patrão e os funcionários obedeciam e ponto. Ele disse isso na frente de todos, inclusive Piquet, Murray e alguns mecânicos daquela equipe composta de pessoas especiais, capazes de ouvir a frase ditatorial do chefe sem desfazer o sorriso que traziam no rosto. Eles sabiam que aquilo era mais um teatro e que na Brabham as coisas davam certo porque cada um fazia bem a parte que lhe cabia. Foi o ambiente propício para Nelson desenvolver sua arte e seu conhecimento.

O surgimento nas pistas brasileiras foi com o nome de Nelson Piket, porque os pais eram contra as corridas de automóveis. Seu pai, Estácio Gonçalves Souto Maior, medico e ex-ministro da saúde nos anos 60, preferia o tênis, que Piquet chegou a jogar muito bem. Na homenagem que Nelsinho faz ao pai neste fim de semana, seu carro na Nascar Truck Series terá a mesma pintura do Super Vê de 76 e trará de volta o nome "Nelson Piket''.

Nelson é um sujeito realizado. Tricampeão, ágil, inteligente e bem-sucedido como empresário, o que lhe deu o dinheiro que na época a F-1 não pagava nem mesmo para os campeões. Não gosta de sair de casa e sente-se feliz quando está junto dos filhos, que vivem espalhados pelo mundo. Bom pai, não quer vê-los passar as dificuldades que ele passou. Pode ser um erro, eu mesmo disse isso a ele. Mas aí é coisa de Nelson Piquet aos 60. Ninguém vai mudar.

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