Piquet e os Piquets

Alguns trabalhos que fazemos na televisão, por mais que o assunto prometa e mais exija em termos de produção, acaba não resultando naquilo que a gente esperava. Ao contrário disso, reunir a família Piquet em Brasília, montar um verdadeiro estúdio de TV no jardim da casa dele e levar para o telespectador a intimidade de um dos maiores ídolos do esporte brasileiro ao lado dos filhos que seguem a trilha deixada por ele no asfalto teve um resultado que me agradou muito.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

O programa Linha de Chegada mostrou momentos de muita sensibilidade, relatos fieis de fatos que marcaram a vida do tricampeão mundial, uma convicção demonstrada por pai e filho de que não se arrependem de terem revelado o episódio de Cingapura, mesmo tendo custado a carreira de Nelsinho na Fórmula-1 e, ainda, uma outra revelação de Piquet contando, sem segurar a emoção, que está sofrendo de uma doença cardíaca sem cura.

O Piquet foi um cara que marcou minha carreira. Muitas ideias que viraram tema do antigo Sinal Verde, programa de oito minutos de duração em que eu apresentava as características do local de cada Grande Prêmio, aliado ao que acontecia no ambiente dos pilotos, partiram de conversas que eu tive com ele. A concepção que ele tinha do mundo da Fórmula 1 sempre trouxe um conteúdo inteligente e muito, mas muito bem humorado.

Assim saiu aquela comparação que ele fez dele mesmo com Mansell, inglês protegido pela equipe inglesa e toda a imprensa do país. Frase que ele reproduziu no Sinal Verde, mas dirigida originalmente ao locutor da BBC inglesa, Murray Walker, na época a voz das corridas na Inglaterra e defensor incorrigível de tudo o que Mansell fazia, inclusive os erros. Murray não admitia que alguém pudesse não ser admirador de Nigel e cometeu o erro de perguntar a Piquet, no ar, o porquê disso. Piquet adorava Murray, mas a resposta fez o bonachão inglês corar de vergonha perante um país inteiro: "Nós temos muitas diferenças: ele gosta de frio e chuva, eu gosto de calor; ele gosta de golfe, eu jogo tênis; ele gosta de mulher feia e eu só olho pra mulher bonita".

Estive ao lado de Nelson nos três títulos que ele conquistou. No primeiro, 1981 em Las Vegas, ele terminou a corrida sem poder mover o ombro direito e todo mundo queria dar um tapinha de cumprimento justamente naquele ombro. No segundo, 1983 na África do Sul, ele combinou com o projetista Gordon Murray, seu grande amigo, de largar com pouca gasolina e em 19 voltas abriu vantagem suficiente para fazer um pit stop e ainda voltar na liderança. No terceiro, 1987 no Japão, ele foi campeão sem marcar ponto. Mansell, o companheiro de equipe e rival, desistiu de correr após um acidente no sábado. O mundo inteiro noticiou que o inglês havia machucado a coluna. Nesta conversa do SporTV, Nelson fez uma outra revelação inédita, a de que Mansell não se machucou, mas desistiu porque tinha medo de enfrentar situações como aquela.

Em 1992, já fora da F-1, Piquet me disse que queria me contar um segredo. Ele tinha decidido disputar as 500 Milhas de Indianápolis, um antigo sonho. Bateu forte em um treino e se arrebentou todo. Escapou por pouco de ter a perna amputada, recebeu dezenas de enxertos nos pés e pernas e, durante a recuperação, por ter recebido milhares de cartas dos brasileiros, resolveu que deveria fazer uma entrevista e me escolheu para isso. Fui ao hospital e à casa dele. O resultado foi uma reportagem de oito minutos no Fantástico. Esta semana, em uma hora de programa, o SporTV mostrou um Piquet, aos 59 anos de idade, com sua nova brincadeira, uma espetacular coleção de carros especiais, e a maior riqueza que ele acumulou na vida - os filhos Geraldo, atual líder da Fórmula-Truck; Nelsinho, hoje correndo nos Estados Unidos, e o garoto Pedro, dando seus primeiros passos no kart e já prometendo chegar à F-1. Pra quem viu e também pra quem não viu, um aviso: domingo no Esporte Espetacular tem mais.

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