Piquet, mestre em esperteza

O pai sempre soube usar as 'brechas' do regulamento

Thiago Arantes, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

O acidente de Nelsinho no GP de Cingapura de 2008 pode ter sido o último episódio polêmico da família Piquet no automobilismo. Mas é certo que não foi o primeiro. Muito antes de o filho bater sua Renault no muro do circuito asiático, supostamente a pedido de Flavio Briatore, o pai notabilizava-se por atitudes questionáveis nas pistas. Nelson Piquet foi, sem concorrentes à altura, o piloto que mais aproveitou as brechas no regulamento de uma Fórmula 1 mais romântica e menos severa.

As artimanhas do tricampeão mundial, contudo, não pararam quando ele deixou a Fórmula 1. Antes mesmo de estrear no automobilismo, Nelsinho aprendeu na prática uma forma de driblar as regras. O ano era 2001, e ele esperava completar o limite mínimo de 16 anos para começar a correr na F-3 Sul-Americana. Como os testes da categoria eram limitados, Nelsinho corria o risco de estrear como saco de pancadas dos outros pilotos, mais experientes. Mas seu pai deu um jeito: pegou o monoposto de Fórmula 3, cobriu as rodas com fibra e disse se tratar de um protótipo. Assim, o filho pôde testar à vontade no Autódromo de Brasília, acumulando quilometragem a que nenhum dos concorrentes tivera direito.

A artimanha mais conhecida do tricampeão de Fórmula 1 ocorreu em 1982, quando corria pela Brabham. Ao lado do projetista Gordon Murray, Piquet valeu-se de um item das regras para correr com um carro abaixo do peso mínimo permitido. O modelo da equipe tinha um falso sistema de refrigeração de freios a água. Assim, havia reservatórios próximos às rodas, para supostamente esfriar o sistema de frenagem.

Os reservatórios, porém, nunca eram abastecidos com água antes da corrida. Eles só eram cheios depois para aumentar o peso do carro. O regulamento dizia que os modelos poderiam ser pesados com os reservatórios de água e óleo cheios. No documentário A Era dos Campeões Piquet admite a esperteza, mas defende-se: "Da maneira que fizemos, era tudo legal."

Por causa das "caixas pretas" - como ficaram conhecidos os reservatórios -, Piquet teve anulada sua vitória no GP do Brasil daquele ano, em Jacarepaguá. O francês Alain Prost herdou o lugar.

No ano seguinte, Piquet também aproveitou-se de uma brecha, ou melhor, da falta de um item no regulamento. "Falei para a equipe: "Temos de diminuir o perfil do carro." Daí, afinamos as rodas, colocamos quase uma polegada mais para dentro. Tiramos o espelho retrovisor (não havia regulamento para retrovisor) e fizemos dois espelhos retrovisores de araldite, bem pequeno", diz o ex-piloto, no mesmo documentário. "O carro ficou 12km/h mais rápido na reta."

Naquele tempo, a F-1 permitia esse tipo de comportamento. Piquet, em vez de criticado, ganhou rótulo de folclórico, irreverente. Tanto que proliferaram outras histórias - a maior parte sem confirmação. Histórias que incluem, até, correr com o extintor de incêndio vazio.

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