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Antero Greco
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Pires na mão

A vida não anda fácil pra ninguém. Nem para clubes fortes e tradicionais, com torcidas expressivas, que têm publicidade com retorno garantido, exposição diária e massificante na mídia. Enfim, que vivem na boca do povo. A gente supõe que Corinthians, Santos e São Paulo, por exemplo, nadem em dinheiro. No entanto, andam com o pires na mão, na situação de vender almoço pra garantir jantar.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2015 | 02h02

Uma passada só no noticiário da semana escancara a ansiedade deles - e de outros, por aí, bem entendido - para se livrar de jogadores e equilibrar o caixa. Rezam, roem as unhas, batem bumbo para que apareçam gringos carregados de euros e dólares a lhes propor ofertas. Como bons e necessitados vendedores, avisam que não há ninguém inegociável. Imagina se é hora pra se fazerem de difíceis...

O São Paulo largou na frente, ao ceder Rodrigo Caio para o Valencia por R$ 44 milhões e lá vai fumaça. No curtíssimo prazo, não foi mau negócio - o clube já vendeu por mais e, em diversas ocasiões, por menos. Viu, em seguida, promessas se valorizarem. Como, aliás, acontece com frequência.

Não é à toa que estrangeiros sempre rondam a área por aqui a farejar oportunidades. A lista de pechinchas brasileiras que se revelaram minas de ouro é extensa e antiga. Se os moços na mira tiverem uma experiência na seleção, mesmo fugaz, melhor ainda.

O São Paulo abriu mão do jovem para quitar dívidas com o elenco, nem entro no mérito da pressão exercida por investidores e agentes, pessoal que tem parcela dos direitos econômicos dos atletas e fica excitadíssimo para faturar em transações. Pelo menos vai bem no Brasileiro, como mostrou no 1 a 0 de ontem sobre a Chapecoense.

O Santos raspa onde puder, para cavar trocados e tocar a vida. Ao saber que o Milan vai às compras, sugeriu Gabriel, o Gabigol, e Gustavo Henrique a preços de ocasião. Os italianos, espertos, preferem Lucas Lima, na mira também do Porto. Os portugueses dariam R4 34 milhões, e o incrível, só 10% desse valor ficaria na Vila. É a parcela que cabe ao Santos. A fatia gorda, de 80%, é de uma empresa. Triste.

O Corinthians só falta colocar anúncio em jornais para ver se alguém carrega Ralf e Gil. Também se empenhou em convencer Elias a acompanhar Sheik e Guerrero no Fla. O volante bate o pé e reafirma desejo de continuar. O dilema alvinegro está nas finanças debilitadas - e o consolo veio em campo ontem com a virada (2 a 1) sobre o Inter.

A movimentação se reflete no desempenho dos times. Não é por acaso que, no meio do ano, grande parte mantém a rotina de reconstruir-se, de persistir em estado de reforma permanente. A onda de idas e vindas, antes restrita ao início da temporada, se estende praticamente pelo ano todo.

Um entra e sai sem fim, com discursos semelhantes. Na hora de explicar venda, o argumento inevitável é a necessidade de equilibrar as contas. Na apresentação de recém-chegado fala em "reforço", palavra desgastada, jeito de driblar o torcedor com a perspectiva, em geral falsa, de que o investimento foi acertado.

Na prática, as equipes demoram a tomar forma, e quando conseguem muitas vezes não lhes adianta para mais nada, pois o ano voou. A impressão generalizada é de tempo desperdiçado, já que na sequência recomeça o ciclo interminável de vaivém de profissionais da bola. No meio, persiste uma ironia: o limite de sete partidas para transações no mercado interno. Pra quê? Com elencos em intermináveis mutações, o ideal seria liberar de vez a movimentação da rapaziada.

Tudo de novo. A seleção brasileira reinicia hoje, contra o Peru, jornada de recuperação que espera alcançar o auge em 2018 no Mundial da Rússia. A equipe sob o comando de Dunga é a menos carismática das últimas décadas - não por culpa do técnico, mas pela entressafra. Como franco-atiradora pode se dar bem, ao contrário da Copa em casa, quando era favorita e não passou de um desastre.

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