Pobre Brasileirão

O Campeonato Brasileiro é, sem dúvida, o mais competitivo de todos os torneios nacionais do planeta futebol. Ao menos entre as nações mais avançadas sob o ponto de vista técnico - uma vez que pode ser que exista, lá pelas bandas do caribe ou do extremo oriente, um campeonato nacional com uma dúzia de times brigando pelo título. No nosso, são nada menos do que dez. Nove times separados por dez pontos, mais o Santos, que está a onze do líder, só que com dois jogos a menos.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h04

É claro que podemos argumentar que um time como o do Coritiba tem menores chances de brigar pelo título, que parece encaminhado a ficar no eixo Rio-SP, mas, na frieza dos números, os dez clubes ainda têm chances.

Por conta disso, é uma pena constatar que o desprezo por uma banal coordenação de calendário esteja prejudicando de forma tão cruel uma eletrizante competição.

Custaria suspender o campeonato nas poucas vezes que a seleção brasileira atua no ano? É claro que não. Se os estaduais fossem um pouco encurtados e a Sul-Americana fosse melhor coordenada com a Libertadores, várias datas ficariam disponíveis para repor os jogos que coincidissem com os amistosos da seleção. No entanto, como a CBF não parece dar importância para essas coisas, muitos dos times que estão na briga pelo título serão privados de seus jogadores mais decisivos justamente na hora em que o Brasileirão começará, no dizer dos boleiros, a afunilar. O líder Vasco, por exemplo, perderá Dedé na 28.ª e na 29.ª rodadas. O vice-líder São Paulo terá de se virar nessas mesmas rodadas sem seu jovem craque Lucas. Já o Botafogo, terceiro colocado e líder por pontos perdidos, estará menos seguro sem as defesas do goleiro Jefferson.

O estrago não para por aí. Que tal um Fla x Flu capaz de decidir a sorte dos rivais de toda a vida sem as presenças de Ronaldinho e Fred?

Pode isso? Pois é. E o Santos, sem Neymar em dois jogos que podem determinar o sucesso ou o fracasso da arrancada do clube rumo ao título, continuará tão competitivo? O Inter, que perdeu seu artilheiro por contusão (e o perderia de qualquer jeito, por convocação), não contará com o eficiente Oscar. Tudo isso sob a ótica dos clubes que sonham com o título. Entretanto, não podemos nos esquecer do pobre Atlético-MG, hoje na zona de rebaixamento, que terá que ceder um dos raros talentos de seu elenco - Réver - para o escrete de Mano Menezes.

Vale lembrar que quanto mais limitado é o elenco de um time, mais os craques lhe farão falta, o que é exatamente o caso dos mineiros. E aí faço uma última pergunta: quem vai ressarcir o Galo caso o clube seja rebaixado para a Segunda Divisão?

Para colocar ainda mais lenha na fogueira, a CBF andou adiando jogos do Santos quando o clube cedeu jogadores para a seleção. É verdade que o Peixe chegava a perder três jogadores para o time principal e outros tantos para as seleções de base. Mas é fato que os outros clubes, ainda mais os que brigam pelo título ou contra o rebaixamento, tratarão de obter adiamentos de seus jogos. Se isso não acontecer, será injusto. Se acontecer, bagunçará de vez a tabela da competição. E logo na reta final. Por conta de tudo isso eu venho, pela enésima vez, apelar para o bom senso dos dirigentes do nosso futebol: não destruam um dos principais produtos esportivos do mundo.

O Brasileirão teria potencial para ser transmitido para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, como ocorre com os principais campeonatos europeus de futebol, com o basquete da NBA, o hóquei da NHL e o futebol americano da NFL. Mas, para que isso ocorra, a CBF terá que dedicar ao pobre Brasileirão o mesmo cuidado de marca e produto que dedica à seleção brasileira.

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