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Poder político ajuda Itaquerão contra o Morumbi na Copa de 2014

Eleição no Clube dos 13 e rejeição à diretoria do São Paulo dão força à nova arena paulista

Sílvio Barsetti e Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2011 | 03h05

Na noite de 31 de março de 2010, Ricardo Teixeira recebeu o título de Cidadão Honorário do Rio em evento na Câmara de Vereadores. A cerimônia já chegava ao fim quando alguns jornalistas tiveram acesso ao salão nobre. No momento em que todos deixavam o prédio, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador do Mundial de 2014 (COL) chamou a reportagem do Estado. Queria mostrar um documento. Pediu, então, a seu auxiliar, Alexandre Silveira, que fosse buscar uma pasta preta.

"Você vai ver agora como é esse jogo", disse o dirigente. Logo, ele destacava algumas folhas brancas em papel timbrado da Fifa que traziam uma contestação da entidade ao novo projeto do Morumbi-2014, apresentado no início de 2010. "O caderno de encargos entregue a todas as cidades-sede é rico em detalhes e muito claro. Veja aqui: São Paulo, pela quinta ou sexta vez, refaz um projeto com erros. Está aqui (ele apontava para o texto): A Fifa não admite arquibancadas móveis em estádios escolhidos para a abertura e o encerramento do Mundial."

Depois de apresentar o documento da Fifa, Teixeira retirou da pasta trechos do mais recente projeto do comitê paulista em defesa do Morumbi como sede do Mundial. E lá constava a colocação de assentos móveis nas arquibancadas do estádio. "Acha que eles não sabem disso? Que eles não sabem que esse projeto também vai ser rejeitado?" Ricardo Teixeira nem esperava uma resposta a cada indagação. Ele continuava. "Estão querendo ganhar tempo, esticar a corda. Sabe por quê? Porque não conseguem garantias financeiras para a reforma do estádio. Com isso, apostam que num último instante haja um derramamento de dinheiro público para dar condições ao Morumbi."

As mensagens públicas de reprovação ao Morumbi já estavam deflagradas havia meses. Ricardo Teixeira e o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, se revezavam nas estocadas. Numa delas, o dirigente da entidade internacional pareceu um pouco mais ríspido. Poucos dias depois, Valcke amenizou o tom e disse que São Paulo caminhava bem, com o Morumbi, para o Mundial. Suas declarações serviram de bálsamo para o Comitê Paulista. Mas foram esclarecidas mais adiante, quando Teixeira revelou que Valcke amolecera o discurso atendendo a um pedido seu.

CLUBE DOS TREZE

Em meio a análises técnicas sobre as condições de o Morumbi ser utilizado no Mundial, havia um outro jogo, mais pesado ainda, nos bastidores: a eleição para o Clube dos Treze. Teixeira lançara Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo, como seu candidato. Fábio Koff tentaria um novo mandato, ao lado de seu braço direito Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo.

Duas semanas depois de receber a comenda da Câmara de Vereadores do Rio, Teixeira anunciou a mais nova patrocinadora da seleção brasileira, a Seara, num evento realizado numa churrascaria da zona sul carioca. Discursos de praxe e abraços para fotos não escondiam a tensão de Teixeira pelo resultado do pleito.

Seus assessores asseguravam que no mínimo haveria um empate entre Leite e Koff. Enquanto mais uma vez ele relatava ao Estado novos problemas com relação à presença do Morumbi no Mundial, seu telefone tocou duas vezes. O primeiro a chamá-lo foi o então governador de Minas, Aécio Neves. Conversaram rapidamente e Teixeira disse que mais tarde retornaria a ligação com calma.

O outro, um emissário seu na eleição no Clube dos Treze, comunicava que o presidente da CBF havia sido traído por dois votantes e que, daquele modo, Koff continuaria no cargo. Teixeira praticamente perdeu a fala ao desligar o celular. Pediu desculpas, interrompeu a conversa com a reportagem e deixou o restaurante imediatamente. Balbuciava contra Juvenal Juvêncio e dirigentes de Bahia e Fluminense.

NOVELA

Ao longo deste processo, iniciado em 2007 e que culminou com a exclusão oficial do Morumbi do Mundial, em 16 de junho do ano passado, houve vários episódios que poderiam sugerir uma peça de ficção. A Fazenda Santa Rosa, que pertence a Ricardo Teixeira no município de Piraí, interior do Rio, recebeu autoridades da Prefeitura de São Paulo e o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, para reuniões sigilosas que trataram de um plano B para a participação de São Paulo na Copa de 2014.

No início de 2010, Teixeira viu seus convidados chegarem de helicóptero para o encontro. Oficialmente, as três esferas de governo envolvidas no Mundial não mudavam o rumo e garantiam o Morumbi na Copa. O prefeito Gilberto Kassab e o ministro do Esporte, Orlando Silva, eram até mais enfáticos, publicamente, na defesa que soava intransigente a favor do Morumbi.

A cada declaração contundente deles sobre a opção pelo estádio do São Paulo, a cúpula da CBF reagia com ironia. Foi assim até o anúncio oficial da exclusão do estádio, durante o Mundial da África do Sul. Chefe da delegação brasileira na Copa do ano passado, o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, falava abertamente que seu clube teria papel decisivo para a capital paulista receber o evento.

ITAQUERÃO

E o tempo mostrou que Sanchez estava certo. Vários aspectos aproximaram o cartola corintiano de Teixeira. Se o COL e a Fifa precisavam de um estádio em São Paulo para substituir o Morumbi, o Corinthians sonhava desde sua fundação com uma arena própria. Pronto, a equação estava fechada. De quebra, tanto Sanchez como Teixeira, que foram parceiros na derrota no Clube dos Treze, atingiam um desafeto em comum: a diretoria são-paulina.

Acerto político definido, o próximo desafio era elaborar e viabilizar o projeto financeiro. Nesse momento, o então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva teve participação decisiva. Foi ele, que carrega a carteirinha de conselheiro vitalício do Corinthians e é amigo pessoal de Sanchez, o responsável por dar os canais de interlocução que a diretoria corintiana precisaria para abrir portas e acelerar o processo.

Dessas conversas nasceu a aproximação com uma das maiores construtoras do País, a Odebrecht. Depois de alguns encontros e desencontros e até ameaça de rompimento do acordo de construção do estádio, Lula, na época já fora do Palácio do Planalto, interveio novamente para aparar as arestas. Em reunião realizada em um resort baiano, logo após uma palestra do ex-presidente, Corinthians e Odebrecht acertaram os últimos detalhes e as obras do estádio finalmente começaram.

Mesmo com máquinas e operário em ritmo intenso de trabalho em Itaquera, outra polêmica ainda deixava a opinião pública desconfiada. O contrato para a construção do estádio não havia sido assinado. Em velocidade recorde, o Corinthians conseguiu os alvarás e autorizações que faltavam, além de acertar a isenção fiscal de R$ 420 milhões com a Prefeitura da capital.

Dessa forma, fechava-se a engenharia financeira do ousado projeto e abria-se a porta para que a cidade de São Paulo não só fosse confirmada como uma das 12 sedes do Mundial como também recebesse o jogo de abertura, considerado o principal momento do evento por causa da presença de um grande número de chefes de estado e autoridades de todo o mundo.

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