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Política x planejamento

A luta pelo poder no Corinthians impediu que a eleição do substituto do presidente Mário Gobbi fosse antecipada de fevereiro para dezembro. Ao tentar encurtar seu próprio mandato, o dirigente trabalhou para ajustar o processo eleitoral às necessidades da agenda do futebol.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2014 | 02h03

A divisão política do Conselho Deliberativo criou um vazio institucional que só trará prejuízos ao time, a menos que uma borrifada de bom senso se espalhe pelo Parque São Jorge nos próximos dias.

A situação é inadmissível para um clube tido como profissional, recentemente campeão brasileiro, sul-americano e mundial. Esse, porém, é o custo da realidade. Permeia a maioria das instituições futebolísticas do País, nas quais o jogo brusco da política é mais saboroso e disputado do que o enfrentado nos gramados.

Palmeiras, São Paulo, Santos, Vasco, Flamengo, Grêmio e tantos outros vivem ou já viveram esse drama. São peças do mesmo tabuleiro. Esses movimentos e suas contradições são fundamentais para a saúde da democracia dessas instituições. Pena que a voracidade das batalhas interfira no campo de jogo.

O contrato de Mano Menezes termina em dezembro, e o treinador já sabe que não vai ficar. A 30 dias do encerramento do Brasileiro, o Corinthians, como qualquer outro clube, já deveria ter desenhado a estrutura do próximo ano e engatilhando as contratações necessárias, da gestão da equipe aos nomes do gramado.

Mas o planejamento continua a ser uma dessas utopias do esporte brasileiro, mesmo para quem chegou ao topo e criou a falsa impressão de que teria competência para manter-se por lá durante um bom tempo. Hoje o Corinthians possui dívida gigantesca produzida por um estádio que ainda nem foi concluído.

Triste é não saber como será tocada a pré-temporada em janeiro. Há quem defenda o controle dos treinamentos pelos profissionais fixos da comissão técnica corintiana. O problema não está na capacidade de Sylvinho, ex-lateral do clube, ou de Fábio Carille, gente bastante competente. A questão central é que modelo adotar até a chegada do novo treinador.

Esses treinamentos não são apenas uma forma de migrar os jogadores do modo férias para o modo competitivo. Não podem ser tratados como se não houvesse sentido lógico e tático empregado à movimentação inicial após as férias.

A pré-temporada com aquela visível subdivisão das atividades em módulos físicos, técnicos e táticos já está superada. A velha periodização, transportada do atletismo para o futebol, perdeu a validade, apesar de muito empregada por aqui. Hoje o estado competitivo é atingido por meio de práticas com bola, criadas para reproduzir o jogo com fidelidade.

Instável como seus adversários, o Corinthians precisa iniciar o ano sabendo exatamente do que precisa. A menos que os candidatos à presidência do clube definam o substituto de Mano antes da eleição, o clube ganhará a taça do amadorismo apenas dois anos depois do título mundial.

Figura rara entre os cartolas, Gobbi veio, viu, sentiu as alegrias e as tristezas de comandar a nação corintiana, e promete nunca mais se meter com a administração do futebol. De estilo centralizador, fez o clube recuar em vários pontos, como na gestão do marketing, fundamental na ampliação das receitas e da marca Corinthians, que faturou mais com o rebaixamento do que com a Libertadores, o grande sonho de sua imensa torcida.

No período em que teve Luís Paulo Rosemberg na diretoria, a agremiação transformou vexame e tristeza em dinheiro vivo.

Quando deu a volta por cima, no momento de alcançar outro patamar graças aos feitos inéditos, voltou à vidinha normal. São os percalços da política interna, ao mesmo tempo saúde e doença dos clubes brasileiros.

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