Polo busca medalha olímpica com rio de dinheiro e melhor técnico do mundo

Nadador sérvio diz que o Brasil está investindo US$ 400 mil em cada jogador naturalizado

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2014 | 15h40

SÃO PAULO - O capitão da seleção brasileira de polo aquático, Felipe Santos da Costa e Silva, o Charuto, percebeu que teria que abandonar seu trabalho quando se deu conta de que seu suplente no cargo de professor de natação para crianças com trauma psicológico era mais assíduo do que o titular. O centro fez as contas e concluiu que poderia continuar vivendo apenas do que ganha no polo aquático - os jogadores da seleção brasileira costumam receber entre R$ 3 e R$ 4 mil em seus clubes e da Bolsa Atleta, paga pelo governo federal.

Charuto enxerga em si e em seus companheiros da seleção uma dedicação maior à equipe, e avalia que isso está valendo a pena. Desde o final do ano passado, o Brasil é comandado pelo treinador que tem o currículo mais impressionante do mundo: o croata Ratko Rudic, dono de quatro medalhas de ouro olímpicas: o bicampeonato (84/88) pela Iugoslávia, o título dos Jogos de Barcelona, pela Iugoslávia, e o ouro dos Jogos de Londres, pela Croácia.

No segundo semestre de 2015, o Brasil poderá participar da Liga Croata, ou talvez até da Liga Adriática (que reúne equipes croatas, montenegrinas e sérvias), graças aos contatos de Rudic e às torneiras abertas de dinheiro do governo federal. Ricardo Cabral, coordenador de polo aquático da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), acredita que a participação num desses campeonatos "não sairia por mais do que R$ 1,5 milhão a R$ 2 milhões". "Seria a cereja no bolo da nossa preparação para os Jogos Olímpicos".

Entusiasmado com esse bolo todo, Charuto vê parte de suas ambições realizadas. "Jogar contra equipes de altíssimo nível, viajar ao exterior para fazer a preparação é tudo o que a gente sempre sonhou", diz o centro, cujos olhos brilham quando fala sobre o que seria o paraíso de sua modalidade, a Hungria. "Os jogadores da seleção lá fazem comerciais na televisão. A piscina de polo aquático é feita só para o polo aquático, é construída no tamanho certo, 36 metros. Não é uma piscina adaptada para receber os jogos. Ela tem uma raia atrás do gol para o goleiro reserva fazer o aquecimento. As partidas recebem público de 1,5 mil pessoas".

Rudic foi contratado como funcionário do COB, e seu salário está enquadrado numa tabela para remuneração de técnicos que a entidade prefere não divulgar.

"Estava aposentado da função de técnico depois dos Jogos Olímpicos de Londres, porque já havia vencido tanto, não tinha motivação para tentar uma quinta medalha de ouro, não sentia que estaria indo adiante. Assumi o cargo de diretor esportivo da federação croata. Depois que surgiu a possibilidade de treinar o Brasil, eu me dei conta que nunca havia treinado uma seleção anfitriã. Seja como jogador ou técnico, participei de todos os Jogos Olímpicos, de 1968 a 2012, mas nunca pela equipe 'da casa'. E aí pensei no Brasil, um país tão bem sucedido em tantos esportes coletivos. Por que não no polo aquático, que tem tudo a ver com sol, com bom tempo? Se houver um projeto de marketing agregado ao nosso trabalho, penso que pode se iniciar um movimento de massa, para ampliar o número de praticantes neste país. Tenho 65 anos, mas ainda possuo muita energia e um grande entusiasmo para criar uma nova atmosfera para o polo aquático brasileiro".

RIGIDEZ

Os jogadores bem sabem que energia é o que não falta para o sexagenário, além de regras muito claras. Alguns horários pareceram estranhos para os atletas: o almoço, por exemplo, marcado para as 11:14. E eles logo perceberam que tinham mesmo que chegar até às 11:14, não às 11:15.

Os treinos são exaustivos - Rudic logo percebeu que o preparo físico dos atletas deixava muito a desejar. Ele ministrou uma carga cavalar de atividades. Agora, os treinos físicos são realizados depois dos coletivos. A ideia é que os jogadores se acostumem a trabalhar no limite da exaustão. "O preparo físico é  fundamental no polo aquático moderno. A equipe que estiver um pouco abaixo nesse aspecto já entra na piscina derrotada. Estamos trabalhando muito para nos equipararmos às equipes mais fortes. A segunda diretriz básica é promover maior intercâmbio internacional. Uma equipe só cresce fazendo grandes jogos, e já estamos trabalhando nisso também", diz Rudic.

A seleção brasileira também se reforçou bastante. O pivô croata Josip Vrlic e o goleiro sérvio Slobodan Soro, titular da equipe na conquista do bronze olímpico nos Jogos de 2008 e 2012, vão se naturalizar. Felipe Perrone, brasileiro que defendeu a Espanha nas últimas duas edições dos Jogos Olímpicos, foi repatriado. Tony Azevedo, prata nos Jogos de 2008 pelos Estados Unidos, também nascido no Brasil, deve seguir o mesmo caminho.

Segundo o nadador sérvio Milorad Cavic, famoso por algumas disputas com Michael Phelps, comenta-se que o Brasil está pagando US$ 400 mil por cada naturalização.

A formação de uma legião estrangeira é considerada legítima por Rudic. "Outras seleções já fizeram isso, como a Austrália e a Itália. Não é um problema. Ao final, se houver coesão na equipe, ela pode obter os resultados almejados".

Resta saber se o Brasil terá tempo para conquistar a medalha olímpica. Rudic iniciou o trabalho no final do ano passado, e ele estima que sejam necessários quatro anos de treinos para formar uma equipe candidata a um pódio. "Mas temos métodos criativos de acelerar esse processo", diz o croata, sem especificar.

Coaracy Nunes, o presidente da CBDA, orgulha-se do esquadrão que está montando. "Eu queria reforçar o meu polo. Fomos atrás de dinheiro do Ministério do Esporte, dos Correios, da Lei de Incentivo...E agora temos um croata que é o melhor centro do mundo, um sérvio que é o melhor goleiro do mundo, o Tony Azevedo, o Felipe Perrone, que são brasileiros que jogavam por equipes estrangeiras. O que importa agora é que teremos reais chances de conquistar uma medalha olímpica". 

 

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