Popó lança 2 candidatos a campeões

Éder Brito Oliveira e Jonivan Barreto Santos têm 18 anos, são pobres, negros, deixaram família, os estudos de lado e saíram de Salvador (BA) para São Paulo para ganhar R$ 20 por luta de boxe disputada. Os dois venceram suas lutas terça-feira no tradicional torneio amador Forja de Campeões e fizeram a alegria do padrinho ilustre, Acelino Popó de Freitas, campeão mundial dos superpenas, versão Associação Mundial e Organização Mundial de Boxe. Jonivan (peso mosca) faria a segunda luta da noite, mas acabou sendo o décimo a se apresentar por causa do atraso de Popó, que só pôde aparecer no Ginásio Baby Barioni às 21h30, duas horas depois do início da programação. Pior para o adversário de Jonivan, Zanon Kosowski, um garoto franzino de Coritiba que não aparentava nem de longe os 17 anos que garantiu ter. Zanon, de calção, luva e capacete, tremia, um pouco pela tensão, mas principalmente por causa do frio de 16 graus e pela chuva fina que caía da abertura lateral do ginásio. Jonivan venceu por pontos o combate de três assaltos. Duas lutas depois foi a vez de Éder (peso leve) vencer Rafael Souza. ?Eles são bons e se trabalharem duro têm tudo para se transformarem em campeões como eu?, disse Popó. Éder, no entanto, não se ilude. ?Vou tentar até uns 20 anos só, se não der dinheiro, desisto disso aqui.? Jonivan, mais otimista, diz que daqui a sete meses já começa a ganhar dinheiro. Vai disputar o torneio Luvas de Prata e deve receber ?no mínimo uns R$ 50 de bolsa por luta?. Ambos são alunos da academia Popó Mão de Pedra, em Salvador, e não pagam nada pelas aulas. ?É caro demais?, disse Jonivan. A mensalidade custa R$ 35. Falta de dinheiro, aliás, é uma regra no boxe amador. O pena Dorval da Silva, de 23 anos, trabalha como entregador de leite, em Sorocaba, e conta que o salário de R$ 400 mal dá para se alimentar, quanto mais para comprar os suplementos necessários para fortalecer os músculos. ?Compro aveia quando dá.? Quem não viu problema algum foi o garoto Guilherme dos Santos, de 4 anos. Ele assistiu uma vez a uma luta de boxe e desde então obriga o irmão Everton, de 17, a levá-lo ao Baby Barioni. No ginásio, apesar do frio, de algumas goteiras e da falta de cadeiras, havia famílias, crianças e mulheres. Mulheres inclusive no ringue. ?Desde criancinha gosto de boxe, por isso virei lutadora?, disse Aline do Rócio, de 31 anos, com o rosto vermelho por causa dos socos da vencedora Nazaré Brito. ?Se ficar inchado, eu passo uma maquiagem e fica tudo bem?, brincou Aline, que não considera o boxe um esporte violento. ?Pode até ser violento para quem fica de fora, mas para mim, que luto, é só um esporte, como qualquer outro?, concordou com Aline o mosca Emerson Carvalho, o primeiro ganhador da noite.

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