Kirill Kudryavtsev/AFP
Kirill Kudryavtsev/AFP

Por 'doping de estado', COI bane Rússia dos Jogos de Inverno de 2018

Coordenador da Copa do Mundo de 2018 também recebe suspensão vitalícia de eventos olímpicos

Jamil Chade / Genebra, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2017 | 17h00

O COI bane a Rússia dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, apenas quatro anos depois de sediar em casa a Olimpíada mais cara da história, com um orçamento de US$ 51 bilhões. A bandeira russa não poderá ser erguida na cerimonia de abertura e nenhum dirigente político ou esportivo poderá viajar até o evento. 

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Essa é a primeira vez na história que um país inteiro é banido por conta de doping. Para que um atleta russo possa participar, ele terá de provar diante de uma comissão internacional sua situação. Aqueles autorizados terão um uniforme diferente dos demais e, se vencerem, apenas escutarão o hino olímpico. Atletas que já tenham sido pegos no doping no passado não serão autorizados a competir, mesmo que já tenham cumprido a suspensão.

Após uma investigação, a entidade concluiu que houve uma “manipulação sistêmica do controle de doping”. No Rio de Janeiro, em 2016, dezenas de atletas também foram afastados. Mas, agora, a suspensão é generalizada a todas modalidades. “Nunca vimos uma manipulação dessa magnitude e causou dano sem igual ao movimento olímpico”, disse o COI. 

Para a entidade, foi o Ministério de Esportes que “fracassou” em lidar com a situação. “Trata-se de um ataque sem precedentes na integridade do esporte”, disse Thomas Bach, presidente do COI.  Segundo ele, em Sochi em 2014, o laboratório de controle de doping foi amplamente manipulado. 

Num esquema de guerra e que envolveu o serviço secreto russo, Moscou promovia uma troca das amostras de urina e de sangue dos atletas por coletas que haviam sido realizadas antes da Olimpíada, e estocadas. A troca ocorria em plena madrugada, por buraco de ratos feitos nas paredes. 

O COI também suspendeu de forma permanente Yuri Nagornykh, vice-ministro de Esportes. Nas últimas semanas, testes realizados com as amostras de Sochi já tinham retirado mais de 30 medalhas dos russos, que na classificação final caíram de primeiro para quarto lugar.  

Em Lausanne, nesta terça-feira, a delegação russa foi liderada pelo ex-agente da KGB, Vitaly Smirnov. Mas, segundo Bach, os russos pediram “desculpas” pela situação. O COI, ainda assim, multará Moscou em US$ 15 milhões.

A entidade também afastou Dmitry Chernyshenko, CEO dos Jogos de Sochi, da Comissão de Coordenação dos Jogos de Pequim de 2022. O presidente do Comitê Olímpico Russo, Alexander Zhukov, também foi banido do COI.

O processo começou há três anos quando, Richard McLaren, investigador independente da WADA, denunciou a existência de um sistema para encobrir mais de mil casos de doping de atletas russos.  

O problema central, porém, não é o envolvimento apenas de atletas. Mas as descobertas de McLaren apontam que Vitaly Mutko, ex-ministro russo de esportes e atual organizador da Copa, era o chefe do plano de estado para garantir que atletas pudessem se dopar, sem risco de serem pegos. Desde então, porém, ele foi promovido dentro do governo russo e se transformou em vice-primeiro ministro. 

Na sexta-feira, em Moscou, Mutko rejeitou qualquer responsabilidade e insistiu que não existiam provas. Além disso, ele insinuou que a Rússia não aceitaria a “intervenção” de uma entidade nos “assuntos de um país”.

O temor no COI é de que a resposta do governo de Vladimir Putin seja um boicote a todo o movimento olímpico, com graves consequências para a entidade. Bach, nesta terça-feira, insistiu que essa saída “não da resultados”.

Mas membros admitem que Putin pode considerar que não haveria espaço para aceitar tal humilhação. 

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, deixou claro que Moscou vai continuar a questionar essas descobertas. “Elas não tem base”, disse. “Vamos defender nossos atletas com todos os meios possíveis”, insistiu. Uma investigação russa ainda concluiu que o delator dos casos de doping, o ex-chefe do laboratório russo, Grigory Rodchenkov, foi quem fornecia os remédios ilegais aos atletas. Vladimir Putin, presidente russo, chegou a dizer que a acusação vinha de um “homem com uma reputação escandalosa”.

 

COPA DO MUNDO

A decisão também coloca uma pressão sobre a Fifa. A entidade tem em Mutko seu principal interlocutor para organizar o Mundial. Depois de dizer que o doping não existia, a secretária-geral da entidade, Fatma Samoura, optou por afirmar apenas que o problema “não era generalizado” no futebol russo.  Já Gianni Infantino, presidente da Fifa, deixou claro que uma punição a Mutko pelo COI “não afetaria” a relação de sua entidade com o russo.

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