Por favor, tirem o tubo!

É com tristeza que escrevo esta coluna. Triste porque constato que as notícias ruins que pipocam a todo instante sobre a preparação do Brasil para receber a Copa do Mundo não representam a pior parte dessa história. Pois é, enquanto massageio minha revolta com orçamentos bilionários para construir e até reformar estádios, ou exercito minha indignação com arenas fadadas ao ostracismo pós-Mundial - aquilo que chamamos de elefante branco -, há outro aspecto que, esse sim, causa-me náuseas: a desfaçatez do ser humano. Ou, se preferirem abrir mão do eufemismo, a cara de pau de algumas das pessoas envolvidas na organização do evento.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2011 | 00h00

Por mais que se alerte para os desmandos e absurdos já cometidos e aqueles que estão por vir, essa gente não está nem aí. Apega-se a um histórico de escândalos que assolam, sem trégua, nossa sociedade nos últimos 500 anos e que, de certa forma, anestesia parte da indignação e do espírito crítico coletivo.

Respaldada pela segurança de que várias barbaridades ainda vão ocorrer, essa cúpula do poder sente-se à vontade para ignorar tais alertas, pois sabe que logo ali na frente novos escândalos ganharão as manchetes, condenando os anteriores ao esquecimento e dando-lhes a tranquilidade necessária para seguirem seu curso nefasto. São vários os exemplos desse raciocínio. Cito dois deles aqui. O primeiro é a construção do estádio de Brasília. O segundo, a enésima reforma do Maracanã.

No caso da capital federal, ninguém consegue justificar o investimento de mais de R$ 1 bilhão na construção de uma arena que, depois do Mundial, vai abrigar jogos de quem? Do Brasiliense, atualmente na Série C do Brasileiro? E mesmo que estivesse na Série A, qual seria a média de público do time amarelo? 7 mil, 10 mil pessoas? Brasília, claro, tem seus encantos, mas nem o mais apaixonado morador seria capaz de relacionar entre eles a tradição futebolística. Ah, já sei, dirão que o local será palco de grandes shows.

E qual é a reação dos organizadores da Copa-14? Nenhuma. Ou melhor, eles não só seguem adiante no projeto de erguer o elefante como falam com naturalidade assustadora, que nos faz desconfiar até de sua saúde mental, que desejam ampliar o projeto para 68 mil espectadores e, assim, deixá-lo em condições para receber a partida de abertura.

O caso do Rio sintetiza bem a questão do escândalo que abafa escândalo. Hoje ouvimos e lemos que a reforma do Maracanã vai consumir outro R$ 1 bilhão. Esse valor, sozinho, já seria motivo para uma crise renal, sobretudo se lembrarmos que se trata do mesmo montante utilizado para a construção da arena de Brasília e supera o previsto para a construção completa do estádio do Corinthians (R$ 700 milhões).

Porém, não é só isso. Quatro anos atrás o governo do Estado do Rio gastou quase R$ 500 milhões em outra reforma do Maracanã. Na oportunidade, para abrigar os Jogos Pan-Americanos. Diante disso, fico com o bordão de um personagem do Jô Soares: "Tira o tubo!"

TROCA DE PASSES

"Essa história sobre propina que o Ricardo Teixeira teria recebido da ISL está mal explicada. Cadê a Fifa nessa hora?"

LUCIANO PORTO

CAXIAS DO SUL-RS

Nota da coluna: Caro Luciano, a Fifa perde uma ótima chance de provar que não pratica aquela máxima "faça o que digo e não faça o que faço". Nesse momento em que a entidade deveria ser transparente, o que vemos são suspeitas de corporativismo. Para muitos com quem converso, esse cenário pode mudar após a eleição do dia 1.º. É pagar para ver. Estamos de olho.

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