Lucas Figueiredo/CBF
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Por que a seleção brasileira não joga sempre assim?

Time de Tite mostra coragem e boa dose de 'molecagem' diante da Argentina, com Messi em campo, e deixa uma ponta de esperança para o torcedor na Copa do Mundo do Catar; só faltou o gol

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 11h00

Após a partida do Brasil com a Argentina, uma pergunta deve ter ressaltado na cabeça do torcedor. Por que a seleção não joga sempre dessa forma? Tite se valeu de seus 'moleques sem medo' para enfrentar um rival tradicional, pegador, bom de bola e com Messi no comando. E eles não se dobraram. Matheus Cunha, Vinícius Jr., Raphinha e Antony não temem nada no futebol, esbanjam vitalidade e disposição, além de técnica, e partem para dentro do adversário, mesmo sendo esse rival a seleção argentina dentro de sua casa.

Era isso que o torcedor esperava do Brasil nessas Eliminatórias. Fosse assim desde o começo da temporada, certamente haveria mais confiança no time pensando na Copa do Mundo do Catar. Durante boa parte das Eliminatórias, a seleção de Tite voou nos números da tabela, mas não teve a mesma alegria dentro de campo. Na maioria das vezes, as vitórias não convenceram o torcedor dada a fragilidade de alguns oponentes ou a forma mais dura e burocrática, por vezes desinteressante, de jogar.

Algumas explicações podem ajudar a entender como o Brasil mudou da água para o vinho contra a Argentina. E a primeira delas diz respeito a atuar sem o comprometimento de ter de somar pontos para a classificação. Não deveria ser assim, mas com Tite é. A vitória e os pontos deveriam vir como consequência de boas apresentações. Tite, e a maioria dos treinadores, pressionados que são o tempo todo, invertem essa mão. Jogam para conseguir os objetivos em primeiro lugar, no caso das Eliminatórias, se classificar para a Copa do Mundo.

Então, não seria demais supor que Tite teve mais coragem porque o Brasil já estava garantido no Catar. Montou um time que gostaria de ter e que vai precisar ter no Mundial do ano que vem. Bastou uma apresentação para esse elenco ganhar mais confiança e chamar, de fato, a atenção do torcedor. Tite também não tirou de seus moleques suas  características de berço. Talvez tenha recuado Cunha um pouco mais, mas deu liberdade principalmente para Vini Jr.. Desta vez, não pediu para o atacante marcar lateral. O Brasil jogou o futebol brasileiro. E não se rendeu nem às intimidações dos argentinos, que foram muitas, inclusive uma cotovelada de Otamendi em Raphinha, que lhe custou jogar todo o primeiro tempo sangrando com um algodão na boca e cinco pontos no intervalo.

Enfrentar seu maior rival também ajudou bem. Brasil e Argentina é o melhor jogo da América do Sul e um dos principais clássicos do mundo. Em Copas e Olimpíadas, é de parar o trânsito. Todos os jogadores querem jogar essa partida. O time de Tite não tinha Neymar e, de certa forma, isso ajudou a testar outros. Neymar faz muita falta, sempre, mas sua ausência por contusão abriu espaço para Cunha e Paquetá assumirem mais o jogo no meio de campo. Até Vinicius Jr. caiu por ali para puxar o fôlego tanto que correu pela esquerda.

Foi uma apresentação de muita coragem. Tite sabe agora que pode atuar mais vezes dessa forma porque terá o apoio de todos no país. Faltava isso para ele. Quando chegou na Rússia para sua primeira Copa, em 2018, era um treinador 'juvenil' em competições pela seleção. Tinha muito o que aprender e sentir. Não é mais esse técnico. Sabe que vai precisar de bons jogadores e de jogadas. Sabe que a velocidade ganha partida hoje em dia. Entendeu que precisa treinar finalização com Vini Jr.. Descobriu que o drible abre defesas e não é pecado. E, o mais importante, que tem jogadores prontos ou quase lá para fazer tudo isso. Pena que não saiu o gol, mas o Brasil teve algumas boas chances.

O futebol brasileiro precisa ser ousado como já foi um dia. Faz quatro Copas que o time não chega nem perto de jogar uma final. Tite tem condições de resgatar esse bom futebol com o elenco que tem nas mãos. Vai precisar do calor desses moleques no Catar. Eu levaria todos eles.

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