Por que o Corinthians quer um estádio?

O assunto não é a bola, é estádio. Atualmente só se fala em estádios. O pretexto é a Copa de 2014 - e as exigências da Fifa. Estamos sendo tratados como País de terceira categoria que não só não tem estádios como nem sequer sabe como deve ser um estádio para conter uma partida de futebol. Somos ensinados como deve ser o "entorno", como as pessoas devem chegar ao estádio, como devem ser acomodadas. Parece que o futebol começou ontem neste País e que nunca disputamos um Mundial. Pretendo deixar de lado o capítulo das "exigências" da Fifa, porque tenho ainda um longo dia pela frente, o céu está azul, a temperatura agradável, e não quero estragar tudo isso. Mas logo me lembro dos estádios aqui da cidade.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

E vem a pergunta: para que o Corinthians quer um estádio? Sobretudo, por que o Corinthians quer um estádio? Time cheio de títulos e glórias, praticamente todas foram conquistadas no Pacaembu. Tenho certeza de que para muitos corintianos nenhum novo estádio vai compensar a tristeza de abandonar o Pacaembu e muito da mística do time vai ficar por lá. Então, pra que um estádio "para 65 mil pessoas" em Itaquera?

A qualquer custo. O Corinthians não precisa ir a Itaquera. Ela, muito menos, precisa do Corinthians. O que Itaquera precisa, como de resto a maioria dos bairros, é de cinemas, teatros, escolas, hospitais, transporte e segurança. Ou muito me engano ou nenhuma dessas coisas virá por causa do estádio. Mas ele será executado, a qualquer custo.

Pergunto: pra que o Palmeiras precisa de uma "arena"? Qualquer recém-formado em arquitetura com um mínimo de talento encontraria meios, no atual Palestra Itália, para acomodar facilmente mais dez ou quinze mil pessoas sem precisar destruir clube nenhum para isso, nem criar problemas para os bairros vizinhos.

Aliás, como o Corinthians, o Palmeiras sempre foi, acima de tudo, um time. Não é um clube, não é uma arena. É um time. Mas, infelizmente, o time não vem bem. A meu ver nenhuma arena, por si só, vai mudar essa situação. Apesar de não contar com arena nenhuma, o time ganhou tudo no século passado, e, para ser franco, só me lembro de um título significativo ganho no Palestra. E, por fim, arenas não geram "recursos". O que gera recursos são as conquistas, a participação em competições importantes como protagonista e não como coadjuvante. Mas virá a arena, porque, como no caso do Corinthians, os motivos são outros.

Já temos um estádio que serve a shows e grandes espetáculos em São Paulo. É o Morumbi. Aliás, esses eventos são a única forma de o São Paulo, a duras penas, conseguir mantê-lo em funcionamento. Por motivos mesquinhos e menores, o Morumbi foi rejeitado como estádio da Copa de 2014 e terá de se virar como pode para sustentar seus mais de 60 mil lugares.

Depois dessa Copa do Mundo, vamos ter vários estádios em condições de uso em São Paulo. Quantos, no entanto, terão alguma utilidade ainda? Quantos continuarão vivos realmente? Entre os condenados, um estará definitivamente morto: o Pacaembu.

Gostaria que os que apoiam o gasto de dinheiro público em arenas e estádios que meditassem sobre o dinheiro público que foi gasto no Pacaembu desde 1940. Com todos os belos estádios novos, na melhor das hipóteses o Pacaembu vai acabar privatizado na bacia das almas, caso alguma rede de supermercados ou de shoppings venha a se interessar. Olho pela janela e o dia continua lindo. Pelo menos isso.

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