Hannah McKay / Reuters
Hannah McKay / Reuters

Por que o homem mais rápido do mundo perdeu os exames antidoping - e uma chance nas Olimpíadas?

Christian Coleman estava prestes a ter uma grande atuação nos Jogos de Tóquio, mas foi suspenso por dois anos por faltar aos testes de doping. Como isso aconteceu?

Matthew Futterman, The New York Times

11 de novembro de 2020 | 08h00

Todo grande atleta comete erros e tem fraquezas, até mesmo o homem mais rápido do mundo. Para Christian Coleman, favorito na disputa pela medalha de ouro nos 100 metros nas Olimpíadas de Tóquio, seu tropeço não tem nada a ver com a forma como treina ou com o fato de ser, em um esporte dominado por pessoas mais altas, muitas vezes o homem mais baixo na pista.

A falha de Coleman é muito mais mundana, mas pode destruir seus sonhos olímpicos. Por três vezes em 2019, ele não estava onde disse que estaria durante a hora diária em que os agentes antidoping deveriam testá-lo. Ele nunca foi reprovado em um teste de drogas, e as autoridades antidoping dizem não ter motivos para suspeitar que ele use substâncias não permitidas para melhorar o desempenho, mas esses três testes perdidos lhe renderam uma suspensão de dois anos da competição.

“Ele está de coração partido”, disse sua mãe, Daphne, sobre o filho durante uma entrevista no mês passado, um dia após as autoridades antidoping de atletismo afirmarem sua suspensão de dois anos para Coleman, que durará até maio de 2022. “Seus avós, suas tias e tios e primos, seus irmãos, todos que o apoiaram; Christian se sente péssimo pelo que isso está fazendo com todos eles.”

Coleman, 24 anos, prometeu apelar da decisão para o Tribunal Arbitral do Esporte, o tribunal superior que julga esses casos. Mas ele enfrenta uma luta difícil, embora tenha recebido uma penalidade por erros que parecem ser em grande parte burocráticos e descuidados, em vez de uma tentativa de enganar seus colegas.

O caso e a punição destacam a postura cada vez mais rígida que as autoridades internacionais têm assumido com os procedimentos de teste após vários escândalos de doping. Mas a situação também ilustra o cenário de testes ainda desigual e o tratamento de atletas em diferentes países.

Oficiais antidoping reconhecem que o processo de teste é até certo ponto injusto para os atletas que vivem em países onde existe um programa doméstico robusto, como Grã-Bretanha, Noruega, Alemanha, Canadá e Estados Unidos. Coleman foi testado tantas vezes em 2019 que Charles Hollander, o líder do tribunal que proferiu a suspensão, escreveu na decisão: “Para evitar dúvidas, não há sugestão de que o atleta alguma vez tenha ingerido qualquer substância proibida, e queremos deixar isso claro desde o início."

Coleman perdeu três testes no ano passado, mas as autoridades ainda o testaram 13 vezes, mais do que muitos corredores de elite de países em desenvolvimento, cujos programas antidoping nacionais têm sido problemáticos por anos, ou da Rússia, onde a agência antidoping conspirou para ajudar os atletas a trapacear. Um porta-voz da unidade, Aditya Kumar, disse que a organização concentra seus testes em países “onde se não fizermos isso, ninguém o fará”. No entanto, há alguma redundância e foi um teste administrado pela unidade de integridade que levou ao terceiro teste perdido por Coleman em dezembro passado.

Durante uma audiência, o advogado de Coleman argumentou que ele havia sido injustamente punido. Após a decisão, Emanuel K. Hudson, seu empresário, chamou a decisão de “infeliz” e prometeu apelar. Coleman não quis se pronunciar para esta matéria. Seu pai, Seth Coleman, disse que o filho nunca tentaria obter uma vantagem ilegal.

“Toda a filosofia de Christian sempre foi, meu treinamento contra o seu treinamento, meu talento contra o seu talento”, disse ele.

Como costuma acontecer, o regime de testes de Coleman aumentou quando ele começou a competir internacionalmente no nível mais alto. As regras exigem que os atletas, no início de cada trimestre, submetam aos oficiais antidoping um cronograma de onde planejam estar a cada dia nos próximos três meses. Os atletas podem atualizar seus arquivos à medida que seus planos mudam, mas eles devem especificar uma hora por dia quando estarão em um determinado local, em algum momento dentro da janela entre 5h e 23h do horário local.

Se um oficial de controle de doping aparecer durante aquela hora para coletar uma amostra de urina ou sangue e o atleta não estiver lá, isso conta como um teste perdido. Os oficiais devem fazer uma “tentativa razoável” para localizar o atleta durante aquele horário, embora um telefonema não seja obrigatório. Se o oficial aparecer em outro momento, mas descobrir que o atleta não está na área, o atleta é notificado por uma falha de registro, que conta o mesmo que um teste perdido. Acumular três testes perdidos ou falhas de registro em 12 meses, segundo as regras, leva a uma suspensão de até dois anos.

Coleman inicialmente teve uma falha no registro em junho de 2018 e, em seguida, perdeu um teste em janeiro de 2019.

Então, logo após o meio-dia de 26 de abril de 2019, um oficial de controle de doping ligou para Coleman de fora da casa do atleta em Lexington, Kentucky. Coleman estava em Iowa assistindo ao Drake Relays, uma importante competição universitária. O registro de sua localização dizia que ele deveria estar em casa naquele dia.

Coleman perguntou se havia alguém na competição de atletismo que pudesse coletar uma amostra dele. O oficial disse que isso não era permitido.

Parecia que essa poderia ser sua terceira violação em 12 meses, mas a falha no processo inicial em junho de 2018 estava retroativa a 1º de abril, dando a Coleman outra chance.

Depois que ele ganhou o ouro no campeonato mundial, as autoridades antidoping alertaram Coleman que ele provavelmente enfrentaria mais testes. Sua mãe disse que às vezes o lembrava de se certificar de que estava mantendo sua localização atualizada.

No último dia 9 de dezembro, dois oficiais de controle de doping chegaram à casa de Coleman em um condomínio fechado em Lexington às 19h09. Coleman havia dito que estaria em casa a partir das 19h15 até 20h15. Em vez de interfonar para a casa de Coleman pelo teclado de segurança, o que Coleman afirma que teria ouvido, eles atravessaram um portão aberto e bateram em sua porta.

Coleman não abriu a porta. Os policiais esperaram por uma hora e foram embora.

Durante uma audiência em outubro, Coleman testemunhou que estava fazendo compras de Natal durante parte do horário em que deveria estar em casa, embora devesse ter estado lá a hora inteira. Ele também disse que comprou comida para viagem, depois voltou para casa para assistir ao início de um jogo da NFL que começou às 20h15, mas não viu nenhum oficial e saiu para fazer mais compras.

Coleman disse que estava tão perto de sua casa durante a hora que se um oficial de controle de doping ligasse, ele poderia ter chegado em casa em 5 minutos, embora não seja assim que o processo funcione.

Funcionários da unidade de integridade contestaram que não o viram entrar ou sair e que teria sido impossível ele voltar para casa a tempo de fazer o teste, com base em recibos que mostravam que ele ainda estava fazendo compras no momento.

Raphael Roux, o diretor de testes fora de competição para a unidade de integridade, testemunhou que disse aos policiais para não ligar para Coleman por causa da combinação de violações e desempenhos excepcionais de Coleman, o que levantou suspeitas, e porque ele "teve a impressão" de que Coleman pode ter sido informado com antecedência a respeito dos testes anteriores. A decisão não citou nenhuma evidência que corrobore com isso.

Kumar, o porta-voz da unidade de integridade, disse que os oficiais só ligam para os atletas em um "conjunto limitado de circunstâncias".

Os defensores de Coleman, porém, ainda acham que o regime de testes foi excessivo para alguém cujos resultados voltaram limpos. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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