Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Por uma vida melhor, haitianos trabalham no Itaquerão

Obras da arena do Corinthians empregam quatro haitianos, que veem no trabalho chance de construir uma nova vida

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2013 | 02h04

SÃO PAULO - Jean, Marie Yveline, Ronald e Richmond têm muito em comum. São haitianos, vítimas, ainda que indiretas, do terremoto de janeiro de 2010 que matou mais de 200 mil pessoas no país, vivem no Brasil como milhares de compatriotas... E seus caminhos se cruzaram nas obras do Itaquerão.

Os quatro fazem parte de um contingente de 1.840 pessoas que erguem a arena corintiana, palco do Mundial de 2014. Ajudam a levantar o estádio enquanto constroem uma nova vida.

Ronald Pierre tem 32 anos e está no Brasil há dois. Fala cinco idiomas (francês, creole, inglês, português e espanhol). Era jornalista no Haiti; virou eletricista em São Paulo. Lamenta o que ficou para trás, mas olha para frente. "Eu gosto muito do Brasil, me sinto bem aqui.''

Até chegar ao Itaquerão, seis meses atrás, Ronald passou por poucas e boas. No início de 2010, levava vida tranquila em Les Cayes, cidade litorânea ao sul de Porto Príncipe (150 quilômetros). Era apresentador de uma emissora de rádio local havia três anos e sentia-se seguro.

Até que o terremoto na capital do país abalou sua vida. Ronald perdeu o emprego e não demorou para perceber que, no caos que se seguiu, seria difícil encontrar ocupação, qualquer que fosse. "Não tem como viver lá. O Haiti passa por um momento difícil e ainda enfrenta um surto de cólera", conta ele. "Todo mundo que tem oportunidade vai para outro país.''

Para Ronald, a oportunidade parecia ter surgido quando uma tia falou que conhecia um homem que levava haitianos para a França. Procurou o "coiote'' e foi informado de que teria de passar uma temporada no Equador antes de rumar para a Europa.

Lá foi ele. Admite ter pago ao coiote, mas não revela quanto. No entanto, haitianos têm desembolsado entre R$ 1 mil e R$ 5 mil na esperança de vir ao Brasil.

Mas, ao chegar ao Equador... "Conheci vários haitianos que estavam lá havia meses com a mesma promessa. Percebi que tinha sido enganado", recorda. Ronald pensou em voltar para casa, mas acabou por acompanhar um compatriota que tentaria entrar ilegalmente no Brasil.

O amigo lhe garantiu conhecer uma área na fronteira com o Peru em que não havia policiais. "Passei 17 dias tentando entrar, praticamente sem dormir. Mas em todo lugar que eu ia tinha polícia e me barravam. Até que consegui chegar a Tabatinga (no Amazonas).''

Lá, esperou três meses pelo documento que lhe permitiu ficar. Foi para Manaus e, 15 dias depois, decidiu tentar a sorte em São Paulo.

CONEXÃO AMAZÔNICA

Manaus também foi rota para Jean Garbin Marcellin, de 32 anos. Mas ele chegou à cidade vindo da Venezuela. Soldador de profissão, tentava estruturar a vida fora do Haiti desde 2007. Começou pela vizinha República Dominicana e estava pela segunda vez na terra de Hugo Chávez, mas a dificuldade para enviar dinheiro para a família (só podia fazer uma remessa por mês) o empurrou para o Brasil.

Jean tem pais e oito irmãos vivos - um morreu no terremoto - e sua ajuda passou a ser fundamental após o desastre.

Era setembro de 2011 e ele pegou um ônibus em Caracas, entrou no País por Boa Vista (Roraima) e foi parar em Manaus. De lá, veio de avião para São Paulo. Com a documentação regularizada, foi morar na Liberdade.

Os haitianos se concentram nesse bairro e no Glicério, ambos na região central. Lá encontram apoio na Casa do Migrante, na Igreja Nossa Senhora da Paz e de compatriotas "veteranos".

Depois de fazer alguns bicos, num belo dia Jean pegou o metrô e foi parar no Itaquerão. Já sabia da construção do estádio e conhecia a Odebrecht, que fizera parte do consórcio que tocou a obra em que trabalhou na Venezuela. "Sabia que seria um emprego duradouro", explicou.

Fez um teste, foi aprovado e começou a trabalhar em 1.º de fevereiro de 2012. Sempre teve boas avaliações e isso o levou, sete meses atrás, a participar de um café da manhã em grupo com um diretor da construtora. O encontro é um bate-papo em que funcionários falam do trabalho, mas, principalmente, da vida.

Quando chegou sua vez, Jean revelou o que lhe angustiava e entristecia: a distância da companheira, Marie Yveline Milus. Disse que gostaria de tê-la junto dele.

O diretor se comoveu e a empresa decidiu ajudar Yveline a imigrar. Foram seis meses de negociações com o governo brasileiro - são emitidos cerca de 120 vistos de permanência para haitianos por mês e a fila é grande, pois calcula-se que há mais de cinco mil solicitações. Mas deu tudo certo e, na segunda-feira passada, ela chegou ao Brasil (a construtora pagou a viagem).

E já tem emprego: vai trabalhar no Itaquerão. "Estou feliz, espero iniciar uma vida de alegrias aqui no Brasil, ter um futuro melhor", balbuciou em creole Marie Yveline - Jean serviu de intérprete. Tímida, voz baixa, mostrava estar assustada em seus primeiros passos no "novo mundo".

A Odebrecht ainda não sabe em que função encaixará Yveline, de 26 anos. É provável que seja como auxiliar de enfermagem, pois ela fez dois anos de curso em Porto Príncipe.

Jean também é tímido, mas seu sorriso revelava um ar de vitória. "Minha vida vai ficar melhor!''. Feliz, ele nem lamentava o fato de ter deixado sua terra natal. "Lá não dá para viver. Tem o reflexo do terremoto e também muita violência. Nos últimos anos, vivemos um clima de guerra civil. O Haiti era um ótimo país, mas agora...''

Depois de morar um ano na Liberdade, tudo o que ele quer agora que está acompanhado é organizar a casa que alugou no Jardim Etelvina (zona leste).

"RAÍZES''

Ronald ainda mora na Liberdade, junto com um irmão que chegou a São Paulo depois dele. Tem carinho pelo bairro, que o acolheu no início de sua caminhada - ele ficou na Casa do Migrante.

Acolhido, Ronald foi à luta. Trabalhou na construção civil, como ajudante, em vários lugares e decidiu fazer um curso de eletricista. Depois de cinco meses, pegou o certificado e passou a bater ponto na portaria do Itaquerão. "Fui umas cinco ou seis vezes e não consegui nada. Mas era aqui que queria trabalhar e insisti.''

Seis meses atrás, conseguiu ser contratado. Está satisfeito, pois agora consegue mandar parte dos R$ 1.472,00 que recebe por mês para a família - pais e seis irmãos estão no Haiti. Só a saudade o incomoda. "É muito grande, mas não dá para ir lá. Me viro com o telefone e a internet.''

A saudade ainda não pegou Richmond Noel. Há apenas dois meses no Brasil, o pintor de 27 anos está na fase da esperança. Acaba de ser contratado e hoje será seu primeiro dia de trabalho. "Estou começando uma nova vida. E vai dar certo", sonha ele. 

COLABOROU TIAGO QUEIROZ

Tudo o que sabemos sobre:
futebolCopa 2014CorinthiansItaquerão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.