Português, a língua dos saltos

Naide Gomes, atual campeã mundial do salto em distância indoor, é a grande favorita ao ouro em Pequim

Jair Rattner, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

Pelos resultados do último Campeonato Mundial de Atletismo Indoor e por ter a melhor marca do ano, a disputa pela medalha de ouro no salto em distância na Olimpíada de Pequim tem uma favorita: a portuguesa Naide Gomes. Mas ela reconhece: tem na brasileira Maurren Maggi uma adversária de peso."É fantástico, porque o panorama internacional é liderado por atletas russas. É sempre bom ter duas atletas de grande nível, como eu e a Maurren, que falam português. Isso significa que nós temos uma palavra a dizer nos Jogos Olímpicos", comenta Naide sobre a disputa em língua portuguesa. No Mundial de Valência, em março, Naide ficou com o ouro tendo saltado 7 metros e Maurren com a prata, após conseguir chegar aos 6,89 metros - as duas melhores marcas mundiais do ano. Nascida em São Tomé e Príncipe, na África, em 20 de novembro de 1979, Enezenaide do Rosário da Vera Cruz Gomes veio para Portugal em 1989, com 11 anos. Conseguiu se naturalizar em 2002 - disputou a Olimpíada de Sydney, em 2000, por São Tomé. Ela conta que não houve problemas com a mudança de nacionalidade: "Obviamente eles ficaram tristes, mas eu nasci para o atletismo em Portugal. Em São Tomé, nem sequer tinha ouvido falar do atletismo. É complicado, porque São Tomé é o país que me viu nascer, é o país que me deu uma cultura e uma lição de vida, mas Portugal eu adotei como meu e é o país que me adotou como sua filha." PROBLEMAS FÍSICOSAté 2003, Naide dedicou-se ao heptatlo - e pentatlo nas competições de pista coberta. Em 2002, chegou a ser vice-campeã européia do pentatlo. No entanto, problemas nas cartilagens do joelho obrigaram-na a optar por apenas uma das modalidades. Há três semanas teve de fazer uma infiltração para aumentar a resistência da cartilagem, de forma a conseguir disputar a Olimpíada. "É como pôr o óleo no carro", diz o técnico de Naide, Antônio Abreu Matos. Das modalidades que teve de abandonar, a que mais lhe custou foi o salto em altura. "Foi complicado porque é a disciplina em que eu comecei. Mas ainda bem que deixei, porque tive uma nova paixão, que é o salto em distância. Acho que no heptatlo nunca teria conseguido alcançar o patamar a que cheguei", diz Naide. No heptatlo, as modalidades em que tinha mais dificuldade eram o dardo e os 200 metros. Os problemas no joelho alteraram a rotina: "Tem sido um martírio, porque já venho com esses problemas há cinco anos e, graças a Deus e com ajuda dos médicos, tenho tido condições de ultrapassar isso com sacrifício e disciplina. Faço fisioterapia todos os dias, de manhã e à tarde. Tem que ser assim se eu quiser alguma coisa." Além do joelho, ela enfrenta uma hérnia inguinal na barriga e só está esperando passar a Olimpíada para fazer uma cirurgia - se fosse feita antes, perderia um mês de treino, o que poderia comprometer suas marcas em Pequim. "Ela aprendeu a se defender. Há posições que não executa porque sabe que depois vai ter dores. Quando tem de pegar alguma coisa no chão, faz de costas retas e pede para outra pessoa amarrar seus tênis", diz Abreu Matos.Voltando a falar de Maurren, Naide contou que só falou duas vezes com a brasileira: "Conheci a Maggi no Mundial de Osaka. Só em Valência pude trocar umas palavras com ela". O que a portuguesa lembra de Maurren é o espírito esportivo, mesmo ficando em segundo lugar: "Ela é simpática. É uma das poucas atletas que veio falar comigo e me parabenizar. Eu, quando perco, sei perder, vou e cumprimento as minhas adversárias."

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