Pra entrar em campo

Madrugada, três e meia da manhã, Rio de Janeiro. Chego de volta ao hotel, após mais uma jornada de trabalho. Estamos gravando um novo disco, eu e Os Infernais. Da sacada do quarto posso ver a orla, a bainha branca da espuma das ondas estourando sobre as areias claras da baía de Copacabana. Ouço a música ininterrupta do vaivém das ondas e ela se junta a outras músicas que vão e vêm aqui no silêncio do invento da minha cabeça. Tudo se mistura, funde e se confunde com o que traz o ar e o que leva o vento intenso pra fora do quarto. Escrever músicas é como imaginar jogadas. Fazer um disco é formar um time pra jogar um campeonato sem regras, infinitamente. Nossa pré-temporada foi em Ubatuba, onde ensaiamos as canções que eu havia escrito ao longo de um ano e meio, talvez um pouco mais. Com a letra de cada uma delas impressa numa folha de papel, apresentei para a banda o conjunto das 11 composições, cada uma um capítulo de uma única história. Uma por uma, uma de cada vez, foi assim que transformamos as palavras grafadas no branco do sulfite em uma armação volátil, numa engrenagem que prendia as sílabas às notas. Dessa forma as músicas começaram a sair do túnel escuro da latência de sua espera.E, como flores descobertas pela luz e pela ventilação, a semente gerou o botão que cresceu e se abriu em pétalas, ergueu-se em caule, entre folhas e espinhos. Escrevo muito comparando o futebol ao que é a vida. É uma associação tão imediata, tão direta que é quase óbvia - essa é uma ideia mais do que simples, chega a ser mesmo vulgar. Talvez porque haja nessa minha profissão (que é uma parte tão concreta do que é minha própria vida) uma relação profunda com o esporte. É criação e entretenimento. Concepção lúdica que articula intenção em expressão e movimento. E assim, de uma forma ou de outra, mobiliza paixão, seja por amor ou por ódio. Há os que gostam e os que não gostam. Há também os que ficam indiferentes, pois na vida quase tudo é assim: diz respeito a alguns, às vezes a muitos, mas nunca a todos. Não há unanimidade nem no que é consensual - todos sabemos que nascemos para a vida, mas nem todos concordam sobre nossa origem. Uns preferem a Darwin, outros preferem a Deus. Nessa imersão necessária a que me entrego para concluir esse trabalho, tenho pouco acesso à luz do dia e à tinta das páginas dos jornais. Os campeonatos regionais estão agora começando, a Copa São Paulo de Juniores está ainda se desenvolvendo, mas foi lá da Europa que veio a notícia de maior impacto: a vultosa soma que o Manchester City estendeu às mãos desinteressadas de Kaká. Confesso que fiquei espantado tanto com a oferta como com o desfecho desconcertante, a negativa do atleta à suntuosa proposição. Um teto pode desabar por desleixo, mas quem crê no céu não cai facilmente em tentação. Impressionante. Hoje já tem coisa acontecendo nos campos do nosso Estado, ontem mesmo teve jogo. O ano está cheio de acontecimentos, daqui a pouco tudo estará pegando fogo. A seleção não demora a dar as caras e toda a pressão sobre Dunga pode voltar em um segundo. Acabou o inverno do calendário e das férias do futebol, que por aqui acontece sempre em pleno verão. E, assim, de fato começa mais um ano. Parece que é a mesma coisa, mas nunca é igual. Depois de um sono bom ou breve é só lavar o rosto que a gente já está pronto pra sair pra rua. Cada um na sua direção, cada um com o seu trabalho. Seja músico, atleta, padeiro, guarda-noturno. Eu por aqui vou fazendo o que posso, preparando o meu time, porque daqui a pouco a gente entra em campo.

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