Pra quem ficou de fora

Foi na sexta-feira passada que o encontrei. Depois de algum tempo sem notícia, nos esbarramos numa esquina e a primeira coisa que ele falou foi "quer dizer que você comemorou o primeiro gol do Ronaldo com a camisa do Corinthians? Só porque não foi contra o seu time!" Palavras proféticas. Domingo provei do doloroso veneno. Sim, digo isso porque os dois lances fenomenais que definiram a vitória que deu a classificação para o Alvinegro passaram pelos pés do camisa 9. Principalmente o passe para o primeiro - um pequeno tesouro geométrico. Ninguém gosta de perder, especialmente a gente que gosta de futebol. Nem jogador, nem torcedor. E, no entanto, é a derrota do adversário temível que dá sabor maior à vitória do nosso amado time. E a história de nossas vidas é escrita pela gangorra das sucessões. Períodos de hegemonia se alternam com outros de vacas magras. Tabus são erguidos e revertidos. Esperas que acumulam anos em filas infinitas de repente se aceleram no passo de uma maré merecida. E, na marcha do acontecimentos, as folhas da memória são preenchidas. O que passou ninguém pode mudar. Mesmo que a razão entenda o que o coração não compreende. Todo mundo gosta é de rever o gol que marcou, nunca o que levou. No dia seguinte de uma lavada, nego prefere nem abrir o jornal. O negócio é esquecer ou fingir que não aconteceu. Bola pra frente, bola pro mato. Melhor se ligar noutro campeonato. Já quem ganhou, compra até jornal que não costuma ler. Tabloide especializado, pôster e notas pras atuações. Destaques pros lances mais importantes, ressaltados em bloco colorido. Mil análises lidas, todas as mesas redondas assistidas. Domingo começam as finais. Corinthians e Santos fizeram por merecer esse lugar. Ganharam as duas partidas sem deixar dúvidas. As atenções vão estar voltadas para Ronaldo e Neymar, o que é normal.Mas os times são muito mais do que isso. Corinthians tem a invencibilidade para defender. E o Santos vem de atuações empolgantes e convincentes. Para as duas torcidas, o jogo será emocionante, tenso. Para quem não torce pra nenhum dois, um grande espetáculo a ser assistido no conforto de uma poltrona. Sem o envolvimento direto, uma partida como essa ganha outra dimensão. Não há o desgaste da expectativa que preenche a véspera, o nervosismo da incerteza, a dúvida sobre o desconhecido. Mas não haverá também o regozijo do prazer, a alegria da conquista, a felicidade da futura comemoração. É estranho ser apenas espectador. Há um evidente sentimento de frustração, uma eminência pontiaguda de inveja, quase indisfarçável. Muitas vezes ela degenera para um sentimento destrutivo que deseja que nenhum dos dois alcancem a glória - o que é impossível. Outros torcem contra o seu algoz recente, querem uma vingança indireta. Resta, ao torcedor que não participa da final, apenas observar. Há aqueles que preferem ignorar. Mas não há como fugir da realidade. Até a mais cega das avestruzes ouve o ruído dos rojões, mesmo com a cabeça enterrada na areia. E sente o cheiro da pólvora vindo pelo ar. Não adianta, não há fleuma que diminua a curiosidade pelo desfecho. Quem disser que um título de campeonato regional não vale nada, está mentindo. Pra quem ficou de fora da festa, boa mesmo foi a do ano que passou. Ou nem isso. Talvez a do ano que vem. Mas pra quem tá na disputa o melhor é sempre o que está acontecendo agora.

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