Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Prata na Rio-2016, Niyonsaba se torna 1ª atleta intersexual a quebrar um recorde mundial

Forçada a mudar para provas de fundo do atletismo, corredora do Burundi venceu a disputa dos 2000m em evento na Croácia e abriu novamente a conversa sobre a presença de mulheres com diferença no desenvolvimento sexual no esporte

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 13h31

Francine Niyonsaba, do Burundi, fez história no atletismo ao se tornar a primeira atleta intersexual a quebrar um recorde mundial. O feito inédito aconteceu em evento realizado em Zagreb, na Croácia, durante a disputa dos 2000m, vencida por Niyonsaba com mais de dois segundos de vantagem sobre a antiga recordista. A medalhista de prata nos 800m rasos da Olimpíada do Rio-2016 cruzou a linha de chegada em 5m21s26.

Mulheres com diferença no desenvolvimento sexual (DSD, em inglês) foram proibidas em 2019 pela World Athletics de competirem em provas de 400m e 1600m devido aos altos níveis de testosterona que apresentam. A única forma de participarem é se tomarem medicamentos para reduzir a taxa hormonal. Essa mesma regra impediu que a sul-africana Caster Semenya, bicampeã olímpica dos 800m, continuasse no esporte.

Para seguir correndo, Niyonsaba não teve escolha senão mudar para as provas de fundo do atletismo. Em Tóquio, ela terminou os 10.000m em quinto e foi desclassificada dos 5.000m por infringir a linha antes da largada. Na última semana, venceu a final dos 5.000m da principal liga de atletismo, a Diamond League, e ainda correu a quinta melhor marca da história dos 3.000m em pista outdoor. O recorde dos 2000m pertencia à etíope Genzebe Didaba, que, em 2017, registrou a marca de 5m23s75 em pista indoor. A irlandesa Sonia O’Sullivan era a recordista do outdoor desde 1994.

O termo intersexual é usado para descrever pessoas que possuem características sexuais biológicas que não se encaixam no que se costuma definir como feminino ou masculino. As diferenças podem aparecer em padrões cromossômicos, gônadas ou genitais. Resumidamente, estas são condições raras que envolvem genes, hormônios e órgãos reprodutivos e fazem com que as mulheres produzam mais testosterona do que aquelas que não tem DSDs.

Em 2019, a Corte Arbitral do Esporte (CAS) decidiu que 46 atletas mulheres com os cromossomos XY (sexo masculino) e que possuem DSD "desfrutam de uma vantagem esportiva significativa se comparado a mais de 46 atletas XX (sexo feminino) sem tal DSD". A conversa é longa e envolve muita polêmica. Semenya declarou em abril deste ano ao Guardian que "eles (World Athletics) estão matando o esporte". 

"As pessoas querem ver desempenhos extraordinários e se eu sou uma líder, daria às pessoas o que elas querem. Agora Seb Coe (presidente da World Athletics) está tornando a situação sobre ele. Ele tem que agir no interesse de todos os atletas, mas agora ele quer nos categorizar. Ele está vendo uma jovem atleta, que a organização tentou impedir, e tornou isso político. Apenas aceite e aproveite. O trabalho dele é combater a corrupção", disse a sul-africana.

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