Prateleiras vazias

Dezembro e janeiro sempre me deixaram em estado de alerta, quando o assunto era futebol. Como torcedor, ficava na expectativa de grandes contratações, de preferência para o meu clube. Como jornalista, passei noites em claro, em busca de notícias sobre negociações bombásticas, ou roí unhas com medo de ser furado pelos concorrentes. Perdi a conta das vezes em que abri os jornais apreensivo com novidades que, por acaso, pudessem ter escapado de meu controle. As transações do mercado da bola descarregavam adrenalina mais do que oscilações da Bolsa de Valores.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

Pois dezembro de 2010 se foi, janeiro dobrou a curvinha da metade e só não vivemos marasmo completo porque até uma semana atrás Flamengo, Grêmio e Palmeiras faziam seus lances no grande leilão de Ronaldinho Gaúcho. O time carioca venceu a parada, sua proposta seduziu o astro e larga a temporada com a sensação de ter feito um negócio da China. Torço para que dê certo. Amém. Para isso, o irrequieto craque precisa recuperar, pela bola, a notável disposição que tem para atividades lúdico-sociais. Se levar ao pé da letra as promessas que fez, os rubro-negros terão muita alegria.

Já os torcedores paulistas não têm o que comemorar, pelo menos até agora. Acompanho futebol desde a época do Concurso de Resistência Orniex - se não sabe o que é, vai no onipresente Google e descubra, mas garanto que faz tempo. Pois bem, não me lembro de ter visto mercado da bola mais esvaziado do que este do ano do Senhor de 2011. Que miséria! Nenhum dos grandes apresentou ainda algum jogador que possa balançar o coreto, que faça o cidadão sair de casa e animar-se a ir ao estádio. Ou que lhe dê vontade de comprar o mais recente modelo de camisa de sua agremiação.

O Santos, que tem base ajustadinha (passeou na estreia, ontem, nos 4 a 1 sobre o Linense), repatriou Elano. Tá certo, trata-se de bom jogador, mas não a ponto de mexer com a massa. O atual campeão paulista tem como trunfos a permanência de Neymar e Ganso. Se bem que o Ganso, em fase final de recuperação de cirurgia, já deu uma espinafrada na diretoria, por se sentir desvalorizado. Sei não... O garoto é bom de bola, mas tem a pressa característica de sua geração, que queima etapas: mal desponta, o candidato a ídolo já quer ganhar os tubos. E consegue, pois tem quem pague...

O Corinthians também não se mexeu, embora possa alegar que a base de 2010 tem condições de sucesso. Jucilei, Bruno César, Dentinho e os veteranos Roberto Carlos e Ronaldo passam esperança para a Fiel. O Fenômeno soprou o retorno de Adriano, mas ficou no sonho. Andrés Sanchez na surdina deu seu lance por Ronaldinho - chegou a insinuar que haveria "novidades" na história - e quebrou a cara, ao vê-lo no Fla. Tentou Luís Fabiano e ouviu um baita não do Sevilla. Fabigol, no entanto, tem vontade de voltar pra cá. Pra quebrar o galho, trouxe o peruano Ramirez. Você conhece?

O São Paulo alterou a rotina de abrir os cofres e limitou as compras ao lateral Juan e ao jovem William José, promessa da seleção sub-20. Os cartolas do Morumbi só não abriram mão do suspense, com certa dose de pretensão. A prova? Na numeração oficial, divulgada anteontem, estão vagos os números 9 e 10. Hum... E o Palmeiras? Esse não tem jeito. Possui o elenco mais limitado dos quatro grandes, sofreu ontem para ficar no 0 a 0 com o Botafogo em casa e a torcida já mandou o recado, com o tradicional coro de "queremos jogador" e com vaias no final. Os bastidores pegam fogo e na quarta-feira haverá eleição para a presidência. Não sei nem se San Gennaro desentorta o Palestra.

Os dirigentes dos clubes usam a escassez de oferta e os salários altos dos que atuam no exterior como desculpas para a inércia. Faz algum sentido. Só que a indigência seria menor se eles se debruçassem em projetos inteligentes para segurar os melhores jogadores de seus elencos e não os cedessem na primeira investida dos europeus. Mas, com tanta gente que ganha fortunas com as transações, fica difícil romper o círculo vicioso e empobrecedor. Por isso, vão com o que estiver à mão e seja o que Deus quiser.

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