Precisa-se de um chato

Ser chato passou a ser um requisito importante para ser treinador da seleção brasileira. De uns tempos para cá, somos brindados com treinadores que, independentemente de outras características, possuem uma em comum: a chatice. Essa palavra pode ser encontrada no Dicionário Houaiss assim, definida em seu uso informal: "maçante, enfadonho, insistente''.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h02

Nada mais consta que possa desabonar o chato. Isto significa que ele pode até ser competente, eficiente, até mesmo vencedor. Mas é chato. Cada vez que ele aparece é um porre. Não sei de onde surgiu essa ideia, mas a partir de um determinado momento, creio que logo após a Copa de 2002, sucederam-se os chatos à frente da seleção.

Repito, ser chato, em princípio, não desqualifica ninguém para o cargo, mas, pergunto: é necessário? Por que o treinador tem que fingir que nada tem a ver com o futebol como ele se dá no meio da população? Por que é alguém à parte, um estudioso, um executivo talvez, quase um acadêmico? É como se a pessoa que treina a seleção deva ser alguém destacado da paixão, alguém imune às opiniões do torcedor, que sabe mais, que é mais informado, que viaja mais, que descobre, talvez através de suas viagens, verdades fora do alcance de nós, mortais.

Não que a seleção me importe muito, pra dizer a verdade. Não deixaria de ver qualquer jogo desse Campeonato Paulista para ver a seleção que a TV mostrou esta semana. Não vi e não gostei. Sabia o que me esperava e, pelos relatos, se passou exatamente o que eu previa. Isso é o pior: a previsibilidade. Tudo acontece do mesmo jeito "maçante, enfadonho, insistente''.

A seleção ganhou, mas é chata, como os últimos treinadores. Um líder impõe necessariamente sua personalidade sobre os liderados, por isso a monotonia da seleção tem suas causas imediatas no banco. Gostaria muito de ouvir as preleções, se é que há preleções, feitas antes dos jogos da seleção durante a vigência desses últimos treinadores. Se elas realmente são feitas, não duvido que o time já entre em campo meio anestesiado por tanto bom senso e equilíbrio.

Futebol não é bom senso, pelo menos o brasileiro nunca foi. É claro que isso responde a causas mais profundas que não vale a pena discutir aqui. Elas podem ser encontradas no esporte e fora do esporte.

Há uma espécie de modorra pairando sobre o País, que nos cobre a todos. Estamos felizes e satisfeitos, viajamos e compramos coisas. Esse estado de espírito talvez nos faça ser mais tolerantes com os chatos que estão por aí. Com os treinadores da seleção brasileira, entre outros. Fez muito bem Muricy Ramalho, por exemplo, em não aceitar a direção da seleção.

Muricy tem muitos defeitos, alguns até contestam suas virtudes técnicas ultimamente, mas, convenhamos, não é chato. Pode ser tudo, mas não é chato. Não tem essa qualidade necessária para dirigir a seleção brasileira.

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