Premonição cumprida

Boleiros

O Estadao de S.Paulo

24 de abril de 2008 | 00h00

O primeiro sinal veio no domingo, por volta das 5 da tarde, nas cercanias de um simpático estádio de futebol onde ocorria um jogo que mobilizou parte da cidade. O céu não estava escuro ainda, mas as nuvens que zanzavam pelo azul emprestavam à tarde ar místico, que mais tarde viria se revelar premonitório. Entre as palmeiras que enfeitavam os corredores de pedra, psitacídeos desgovernados anunciavam a presença do invasor indesejado. As poucas sementes despencadas no verde do chão denunciavam que o banquete havia sido interrompido às pressas. Sem vestígios de penas que afiançassem a abundância das aves que ali banquetearam, sobrou a surpresa dos que não estavam ali. Os pássaros foram os primeiros a intuírem o movimento e deixarem o recinto por segurança e precaução, assim como os elefantes que pressentiram o tsunami; no local, só sobraram os homens.O gás surgiu repentinamente. Sem explicação de sua origem, num ambiente fechado espalhou as toxinas de seu ardor. Um dos grupos de atletas que por ali se enfrentavam teve alterada a rotina dos seus procedimentos. A balbúrdia das arquibancadas impediu que se visse o fato sem os tons de alegria da euforia selvagem. Os olhos vermelhos perdiam no congestionamento de seus capilares intumescidos para a confluência do verde presente no mesmo espaço, majoritário.No cenário central da partida, imperadores importados e pretendentes a magos saçaricavam suas ousadias. Com uma dança patética oriunda do Pacífico, o druida folião franjado celebrou a vitória de seu grupo, com irreverência e bestialidade. Nesse instante o céu escureceu e os seguidores do arrelia julgaram ver a aurora do cometa da Anunciação. O falso alarme deu ares dramáticos ao simulacro do ato profano.Era apenas o princípio da revelação. Nessa mesma tarde, num logradouro inesperado e mais ao Sul, um sacerdote alucinado resolveu contemplar in loco e com seus próprios olhos o altar intangível da Ressurreição. Erguido por mil balões angelicais e coloridos, a bordo de um cesto frugal e infantil, subiu aos céus carregado pelos anjos disfarçados de bexigas expandidas com gás hélio. A tabela periódica trabalhava ensandecida e sem interrupção.A galhofa do reverendo deixou aturdidos os olhos das testemunhas que sumiam na terra cada vez mais distante. Seu veículo suicida extrapolava a estratosfera e reduzia a grãos os discípulos que assistiram à sua missa benemérita e desgraçada. Perguntado sobre o risco que trazia o dia enxaguado em chuva, respondeu peremptório, esbaldado em profunda discrepância: ''Acima do teto das nuvens só há de haver o Sol divino e maravilhado''. E assim sumiu, sem deixar outros vestígios se não as cascas de sua carruagem despetalada. O mar trouxe de volta as migalhas do pão seco do sangue e sem o vinho de sua tintura enfeitiçada.Foi assim, dando seqüência a um domingo de espanto entremeado por vingança em espírito de revanche, após o silêncio do juízo de um enforcado que enforcou a segunda, que a terça-feira nos trouxe o verdadeiro terremoto. O abalo que chacoalhou com ineditismo e orgulho parte até então intacta e inatacada do solo do pobre país nosso, fez vir à luz a centelha e a explicação do gás sem pai nem mãe, sem certidão de autoria ou requisição pelo atentado. De uma pequena fratura geológica ele surgiu - o gás!, antecipando o terremoto que abalou São Paulo.

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