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Preocupação de boleiros

Joel Santana e Edu Bala entendem de bola, estão no ramo há décadas, rodaram o mundo, têm o esporte como lazer e profissão. O primeiro não foi zagueiro exuberante, mas como treinador ganhou um monte de títulos, principalmente com equipes do Rio, e no momento é fenômeno de propaganda. O segundo, ponta veloz que, em sua época (anos 1970), era tido como um estouvado de chute potente. Hoje, faria parte da casta dos craques.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2013 | 02h06

Por coincidência, topei com a dupla anteontem, em horários diversos. Papo vem, papo vai, histórias daqui e dali, ambos abordaram preocupação comum: a queda de qualidade técnica dos jogadores da terra. Com exceção dos muito bons e dos astros, que em toda época revelamos, consideram que na média o nível por aqui caiu.

Motivos são variados, na opinião dos conhecedores, e o maior de todos seria a falta de espaço para as crianças brincarem de futebol com liberdade. E com regularidade. Não há campinhos, até nas periferias a várzea ficou rara e elitizada, não se consegue fazer um bate-bola na rua, não se têm disputas de gol a gol, muito menos as famosas rebatidas vale dois. Esses grandes laboratórios espontâneos de talentos sumiram e foram trocados por "escolinhas", muitas das quais funcionam como peneiras disfarçadas e que atraem empresários em busca de pérolas brutas e baratas.

"Tem moleque um pouco mais habilidoso que já vem com assessor, ganha uma grana alta com 14, 15 anos e não quer fazer treino de fundamento", deplora Edu. "A moçada tem fardamento moderno, chuteira que parece sapatilha de bailarina e não sabe como se coloca uma atadura nos pés", emenda papai Joel. O grande sonho, generalizado, é se mandar logo para a Europa.

Boleiros à moda antiga - ou melhor, à maneira tradicional -, lamentam que os rapazes não ralem os joelhos, não se sujem, não convivam muito com as agruras e com os sonhos das categorias de base. Por extensão, não criam raízes nos clubes que os revelam, pois batem asas assim que se destacam. Em vez de serem chamarizes para os fãs, só aumentam a frustração local. Casos recentes são os de Bernard e Vitinho, sem contar os de Lucas e Neymar. Todos viraram imigrantes, como tantos conhecidos ou aventureiros brasileiros que divertem plateias europeias.

Os reflexos são inevitáveis no âmbito doméstico, com o nível mais baixo nos elencos e nas competições. A bola de neve só se agiganta, com torcida menor nos estádios (muitos agora metidos à besta e em busca de público diferenciado, com amplos lugares vazios), audiência que não entusiasma. E, o pior de tudo, sem ídolos para cultuar em casa, cresce a influência dos times de fora. Basta dar uma olhada na quantidade de gente que se diz torcedora de Barcelona, Real Madrid, Manchester.

Não é à toa que um dos assuntos mais discutidos ontem foi a goleada do Real Madrid sobre o Galatasaray, com três gols do Cristiano Ronaldo (e o português joga muito mesmo). Não se trata de acaso a expectativa para ver Neymar hoje com o Barça a estrear na Copa dos Campeões.

E aqui? Ficamos a chupar manga. Joel Santana e Edu que o digam.

Decisão. Meto bronca no endeusamento dos gringos, mas Deus me livre e guarde de xenofobia. Ao contrário, 30 anos atrás, brigava, aqui neste mesmo caderno, por cobertura maior do futebol do exterior, por entender o quanto era importante.

Mas, como também não abro mão de vibrar e sofrer por times daqui, não perco de jeito nenhum o clássico entre Cruzeiro e Botafogo hoje à noite no Mineirão. O destino do Brasileiro de 2013 pode tomar rumo bem evidente se os mineiros vencerem. Daí, abrem diferença de sete pontos para o próprio Bota e será difícil alcançá-los. É prova para campeão. Se bem que o Botafogo tem surpreendido além da conta.

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