Presidente do último título é despejado e fala em voltar

Perto de completar 91 anos, Alberto Dualib deixou a capital e vive hoje em uma chácara isolada

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 00h00

O cotidiano de Alberto Dualib sofreu mudanças radicais nos últimos três anos. A poucos dias de completar seu 91.º aniversário (dia 14), o ex-presidente do Corinthians, que comandava o clube na última conquista do Campeonato Brasileiro, em 2005, ainda não conseguiu a tranquilidade que todos buscam nesse período da vida. Imaginava-se que a renúncia à presidência e à condição de associado do clube, ocorrida em 2007, após escândalos com notas fiscais frias e a polêmica parceria com a MSI, pusesse fim à série de confusões sem precedentes no Parque São Jorge da qual ele foi um dos personagens principais. Puro engano.

Há alguns meses, o homem que ocupou a principal cadeira do clube durante quase 14 anos se viu obrigado a deixar a casa onde viveu por mais de 38 anos, no Alto de Pinheiros, região nobre da capital. Sim, o poderoso Alberto Dualib, empresário bem sucedido, frequentador de altas rodas, era sumariamente despejado de seu principal imóvel. A decisão foi tomada pela Justiça como resultado de uma ação contra a falta de pagamento de um aluguel. Dualib, por meio de uma de suas empresas, era o fiador.

Hoje, ele mora na chácara que possui há mais de 40 anos em Itapecerica da Serra. Mas ainda não entendeu o motivo de lhe terem tomado a casa. "Possuo vários imóveis, mas quiseram tirar a minha casa. Algumas pessoas não se satisfazem em me ver com problemas. Os credores foram muito safados comigo. Queriam que eu passasse por uma humilhação", discursa, sem esconder a mágoa, durante entrevista ao Estado.

O privilegiado patrimônio, acumulado em mais de 70 anos, ainda garante a Dualib uma vida confortável. Mas os resultados e acontecimentos de sua passagem pelo Corinthians insistem em afligir seu dia a dia. Dualib sofre as consequências de ter a imagem maculada. "Tenho patrimônio, mas não consigo negociá-lo, pois as pessoas evitam fazer negócios quando sabem que os imóveis são meus", diz. Mesmo assim, ele ainda sonha em voltar ao Parque São Jorge. "Gostaria muito (de voltar), espero que permitam isso."

Como tem sido a vida do senhor nos últimos anos?

Não parei de trabalhar. No dia 14 eu completo 91 anos e continuo tocando minhas empresas. Estou vendendo loteamentos de uma área que comprei faz tempo e só agora pude me debruçar sobre isso. Também tenho procurado me dedicar mais à minha família. Durante todos os anos que estive no Corinthians praticamente deixei minha família de lado, em segundo plano. O clube consome demais a gente. E agora preciso compensar um pouco dessa ausência.

Quando o senhor põe a cabeça no travesseiro e reflete, que balanço faz de tudo o que aconteceu, como MSI, Ministério Público?

Não tenho do que me arrepender. Mas hoje entendo que apesar de tantas vitórias, de tantos títulos conquistados, o lado ruim foi maior. Acho que não valeu a pena por tudo o que tive de abrir mão na minha vida. Quando assumi a presidência do Corinthians, tinha 153 imóveis registrados em minha declaração de Imposto de Renda. Quando saí, esse número estava na metade. Só para você ver, hoje estou morando em minha chácara em Itapecerica porque fui despejado de minha casa, que muita gente dizia que era uma mansão e onde morei por 38 anos, onde criei minha família.

Mas como aconteceu esse despejo?

Por meio de uma de minhas empresas, eu fui fiador de um aluguel. A pessoa não cumpriu o contrato e vieram para cima de mim. E não teve jeito, tomaram a minha casa.

Mas o senhor possui vários imóveis. Por que não levaram outro?

Ótima pergunta, pois é isso que questiono até hoje. Sabe o que é, depois de tudo o que aconteceu no Corinthians, algumas pessoas não se satisfazem em me ver com problemas. Os credores foram muito safados comigo. Queriam que eu passasse por uma humilhação.

E não há a possibilidade de vender um desses imóveis?

Até há. Mas ficou difícil fazer negócio. Todas as notícias que saíram na época do Corinthians fizeram com que as pessoas desistissem do negócio quando ficavam sabendo que o imóvel é meu. Sei lá, acham que a Justiça pode confiscar. Conclusão, gostaria de vender todos esses imóveis, mas não consigo. E você sabe, acabam se transformando em um problema, pois custa caro manter tudo isso.

Acostumou bem com a vida longe da capital?

Sinto falta de morar em São Paulo. Estava acostumado com agitação, e aqui na chácara só vejo mato por todos os lados. Quem sabe no ano que vem eu volto para a capital. Agora sou apenas eu e minha mulher, que está com 89 anos. Não precisamos de nada muito grande.

Alguém no Corinthians o ajudou?

Na época procurei o Rosenberg (diretor de marketing), que é meu amigo. E é claro que ele fez chegar ao Andrés (Sanchez, presidente). Mas não aconteceu nada.

E essa história de que estaria passando seus dias em Las Vegas?

(Risos) Olha, quem me dera fosse verdade. A pessoas gostam de falar muito e falam bobagem. Minha mulher sofreu algumas quedas e fico aqui para ajudá-la.

O senhor ainda acompanha o dia a dia do clube?

Acompanho. Tenho meus informantes. Esses dias mesmo me avisaram que a dívida está em R$ 140 milhões e que o Raul (Corrêa da Silva, diretor de finanças) explicou que se trata de investimentos. Gozado, na minha época a dívida era a metade e essas mesmas pessoas diziam que era má gestão. Ora, também eram investimentos, pois fiz o CT de Itaquera, o Memorial, a sede social.

O que tem achado da administração do Andrés Sanchez?

Acho que o Andrés tem feito um bom trabalho, pois tirou de lá todos que me traíram.

Quem traiu o senhor?

Não quero citar nomes, mas tem muita gente que ajudei muito, que ficava por perto e depois desapareceu. Por isso , quando me perguntam se valeu a pena, digo com toda sinceridade que não. Mesmo considerando todas as glórias. Tiraram meu nome de tudo lá no clube, mas não conseguiram, e nem vão conseguir, tirar as estrelas que eu pus naquela bandeira.

O senhor confia que o estádio vai mesmo ser construído em Itaquera?

Ué, me parece que isso já está definido. Tenho certeza que vai. O Andrés tem se mostrado um bom administrador e um bom negociador.

Por que a sua administração não conseguiu avançar nesse projeto?

O Andrés teve algumas facilidades que eu não tive. Por exemplo, o apoio do Lula. Além disso, ele soube aproveitar essa história de o Brasil ser sede da Copa do Mundo. Esse fato agitou o mercado.

Gostaria de voltar ao clube?

Claro que eu gostaria. É um sonho meu poder ficar ali, com os outros velhinhos, só reclamando do presidente atual. Porém, a gente tem de ser realista. Hoje é difícil que isso aconteça. Tem aquela turma da torcida que assumiu lá, que tomou conta de tudo. Desse jeito vai ser muito difícil. Mas espero que alguém me ajude e eu possa voltar a ser sócio. Afinal, frequento o Corinthians desde minha juventude, na década de 30.

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