Presos viram questão diplomática

Após visita à Bolívia, parlamentares e diplomatas afirmam que o governo brasileiro deve 'subir o tom' para garantir os direitos dos 12 corintianos

GONÇALO JUNIOR , RAPHAEL RAMOS, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h02

A prisão dos 12 torcedores corintianos na Penitenciária San Pedro, em Oruro, na Bolívia, transformou-se em um problema diplomático. Essa foi a principal conclusão dos integrantes da Comissão de Relações Exteriores do Senado que foram até o interior da Bolívia, ontem, para avaliar a situação dos torcedores, detidos desde o dia 21 de fevereiro, acusados de envolvimento na morte do torcedor Kevin Espada, atingido por um sinalizador na partida entre San Jose e Corinthians, pela Libertadores.

"O governo brasileiro precisa subir o tom e encarar essa questão como um problema diplomático. Caso contrário, eles vão ficar aqui (Oruro) para sempre", disse o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), presidente da comissão, que esteve em Oruro.

Ferraço explica que a relação entre Brasil e Bolívia sempre foi delicada em função do elevado fluxo migratório (atualmente, 18 mil brasileiros fazem cursos de graduação na Bolívia - medicina, na maior parte das vezes) e das questões de segurança que envolvem a fronteira de 3,5 mil quilômetros. "É uma questão de defesa nacional", comentou o parlamentar. "Não são torcedores. São cidadãos brasileiros."

Essa importância já havia sido dada no encontro entre o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, e o presidente boliviano, Evo Morales, no início do mês, em Cochabamba. "Falei para as autoridades bolivianas a importância de garantir o pleno direito de defesa aos brasileiros e condições dignas na prisão", declarou Patriota.

A diplomacia anda de mãos dadas com a economia. O Brasil foi destino de 41,1% das exportações bolivianas. Entre 2008 e 2012, o comércio bilateral entre os dois países cresceu 22,8%.

Nesse contexto, a próxima providência da comissão será agendar uma reunião com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ainda nesta semana. Desse encontro deve participar também o presidente do Corinthians, Mario Gobbi. A assessoria do clube confirmou que no dia 2 de abril Gobbi se reunirá com Antônio Patriota.

Sem tortura. Ferraço afirma que os brasileiros não foram torturados. "Conversei abertamente com cada um deles e disseram que não houve tortura. Eles temem ser colocados nas outras celas com assassinos, estupradores e traficantes."

Hoje, os 12 corintianos estão separados dos demais presos. Eles estão divididos em duas celas de uma ala reservada com outros 40 detentos. O maior problema são as condições de higiene. A ala possui um único banheiro, sem chuveiro e privada (há apenas um buraco no chão).

Quando o Estado visitou os 12 corintianos na penitenciária, no dia 28 de fevereiro, a convivência com os outros presos era pacífica. Quase um mês depois, porém, a situação mudou, de acordo com familiares dos brasileiros. "Tem preso boliviano que usa droga na cadeia. Meu sobrinho me disse que se eles saírem da ala reservada e ficarem misturados, esse pessoal pode querer roubar as coisas deles. Se os brasileiros revidarem, vão para o calabouço", conta Marisa, tia de Hugo Nonato, um dos 12 presos.

Desde que o pedido de liberdade condicional foi negado aos presos, no último dia 12, os avanços na defesa não foram significativos. Parte do problema é a burocracia. O Ministério Público de São Paulo atendeu às solicitações da Justiça boliviana e encaminhou as fichas de antecedentes criminais dos torcedores e o vídeo da entrevista que identifica o autor do disparo - um jovem de 17 anos, sócio da Gaviões da Fiel, confessou o crime ao Fantástico, da Rede Globo, e se apresentou à Justiça. "Só estamos esperando as autoridades bolivianas assinarem os documentos", diz Thales Cézar de Oliveira, promotor responsável pelo caso.

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