Jenn Ackerman/The New York Times
Jenn Ackerman/The New York Times

Liderando o pelotão na sua primeira maratona

Com seu tempo na Maratona de Nova York, Annie Frisbie fez a quarta maratona de estreia mais rápida para uma mulher americana

Talya Minsberg, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 20h00

MINNEAPOLIS - Existe um ditado entre os treinadores de corrida: corra sua própria corrida. Não se concentre em coisas que você não pode controlar, especialmente nas táticas de seus adversários. No mês passado, Chris Lundstrom, o treinador do Minnesota Distance Elite, assistiu uma de suas atletas, Annie Frisbie, fazer exatamente isso na Maratona de Nova York.

A versão de Frisbie para “correr sua própria corrida” – sua primeira maratona, aliás – envolvia liderar o pelotão na primeira metade da prova, à frente de Peres Jepchirchir, do Quênia, medalha de ouro na maratona dos Jogos Olímpicos de Tóquio, e Molly Seidel, dos Estados Unidos, medalha de bronze.

Lundstrom, natural de Minnesota, poderia muito bem ter reagido dizendo: “Nossa Senhora”.

“Por um lado, você fica tipo, ‘talvez ela não consiga a liderança’”, disse o técnico, lembrando-se de ter visto Frisbie pela primeira vez da parte do Brooklyn. Ele dera a ela um plano de corrida muito simples: fique relaxada na primeira metade e vá com tudo na segunda.

“Foi legal, mas ainda não parei para pensar muito nisso”, Frisbie, 24 anos, disse sobre liderar a corrida. “Eu estava focada principalmente em ver como eu estava me sentindo”.

Quando Lundstrom viu seu tempo na primeira metade – 1 hora, 12 minutos e 43 segundos – ele disse que voltou a reagir com certa hesitação, pensando: “Bom, tudo bem, o ritmo está bem agressivo, talvez um pouco agressivo demais”.

Frisbie terminou a prova em impressionantes 2:26:18 – tempo que foi bom o suficiente para lhe render o sétimo lugar e que fez dela a terceira mulher americana no quadro geral. Ela correu a quarta maratona de estreia mais rápida para uma mulher americana e se tornou a quarta mulher americana mais rápida a correr a Maratona de Nova York.

Annie Frisbie é mais uma fundista americana que vem traçando seu próprio caminho no esporte e superando as expectativas. Sua jornada começou no ensino médio, em River Falls, Wisconsin, quando sua mãe lhe disse para tentar vôlei ou cross-country. Ela não gostava muito de vôlei, então se juntou ao time de cross-country. Ela não tinha pensado em competir por nenhuma faculdade até que os recrutadores expressaram interesse e ela percebeu que a oportunidade poderia ajudá-la a pagar as mensalidades no ensino superior. Então, ela começou a competir em atletismo e cross-country no estado de Iowa.

Ela também não tinha pensado em correr profissionalmente. Frisbie queria estar perto de casa e tinha aceitado um estágio nas Twin Cities quando uma atual colega de equipe lhe contou sobre o Minnesota Distance Elite, um pequeno grupo que se reúne três vezes por semana para treinar atletas – desde corredores de 1.500 metros a maratonistas.

É um tipo diferente de equipe: aquela em que os corredores – e o treinador – têm suas profissões listadas ao lado de seus melhores tempos pessoais. Lundstrom faz parte do corpo docente da escola de cinesiologia da Universidade de Minnesota. Ele treina professores, um contador, um cientista de dados e um desenvolvedor de software, entre outras pessoas.

Annie Frisbie disse que foi uma decisão fácil. Ela aceitou o emprego de designer gráfica numa start-up de cuidados de saúde e começou a treinar com o grupo. Seus colegas ficaram chocados ao ver sua “colega de corrida” liderando uma grande maratona na ESPN.

“Ter uma vida mais equilibrada faz de você uma pessoa mais feliz e, por sua vez, uma corredora mais rápida”, disse ela, tomando uma cidra em Minneapolis, cidade que ela pretende manter como sua base. E acrescentou: “Eu ficaria estressada se só corresse e não estivesse ganhando nada de dinheiro”.

Quando questionados sobre as condições de treinamento em Minnesota – onde podem se passar semanas sem que a temperatura suba acima de zero e finas camadas de gelo e vários metros de neve podem cobrir o solo – Frisbie e Lundstrom disseram pouco mais do que “tranquilo”. A maioria das cidades que atraem corredores profissionais e equipes tem climas mais temperados: Think Eugene, Oregon; Boulder, Colorado; ou Flagstaff, Arizona.

Depois da maratona, Frisbie se viu inundada de mensagens de patrocinadores e agentes em potencial. De repente, as corridas querem o nome dela em suas escalações. Não seria inédito para uma atleta em sua posição deixar o emprego, mudar para um clima mais temperado e viver e treinar com dinheiro de patrocínio.

Também é tentador olhar para uma corredora como Frisbie e colar um rótulo. Ela poderia ser uma das próximas grandes corredoras de longa distância americanas, a próxima Sara Hall ou Des Linden – a atleta em ascensão que poderia continuar quebrando as expectativas.

Frisbie e Lundstrom estão avaliando todas as opções acima. Frisbie está feliz, saudável e se sentindo em casa. Lundstrom está tentando não estabelecer um piso ou um teto para o que vem por aí para a jovem maratonista.

“Não vale a pena gastar uma tonelada de energia sonhando com o que é possível quando você só precisa fazer as coisas e a atleta precisa se manter saudável e progredir”, disse Lundstrom.

A mentalidade de “trabalhe duro e seja legal” de Minnesota surgia em cada uma de suas palavras: Não tenha um ego grande demais. Não se precipite. Pense em cada treino como um passo adiante.

Frisbie está conversando com agentes e ex-corredores profissionais sobre suas incursões no mundo do esporte de alto nível e está animada com tudo o que está por vir. Mas, aos 24 anos, ela tem a maturidade de uma atleta que viu o que pode dar errado quando uma grande corrida – e a pressão que se segue – sobe à sua cabeça.

“Se você não está curtindo o momento, se está só se forçando a treinar e subir na vida, suas chances de se esgotar são bem altas”, disse ela. “Você provavelmente não vai conseguir uma carreira de dez ou quinze anos, que é o que espero fazer. Então acho que você tem que viver um dia de cada vez”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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