Arquivo Pessoal
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Primeiro brasileiro a escalar o Everest conclui os 4 Mil dos Alpes: 'Maior projeto do montanhismo'

Expedição que consiste em escalar todas as 82 montanhas da cordilheira dos Alpes só foi realizada por 52 montanhistas no mundo, entre eles agora está Waldemar Niclevicz

Caio Possati, especial para o Estadão

26 de junho de 2022 | 05h00

Quando o experiente alpinista paranaense Waldemar Niclevicz, de 56 anos, chegou ao cume da montanha Aiguille du Jardin (Agulha do Jardim, em francês), na França, ainda em abril, ele chorou. Emocionado, sabia que ali, em meio a uma branca e gélida cordilheira entre a Suiça, Itália e o país francês, ele tinha concluído o maior e mais importante feito de toda a sua carreira no montanhismo: realizar a escalada das 82 montanhas dos Alpes que possuem mais de 4 mil metros de altura

As lágrimas de Niclevicz foram espremidas pelo sentimento de orgulho de fazer o que poucos conseguiram. De acordo com os dados da UIAA (União Internacional das Associações dos Alpinistas), a maior entidade do alpinismo mundial, somente 51 pessoas até então tinham completado os “4 Mil dos Alpes”, como a expedição é conhecida. Waldemar não foi somente o 52.º a chegar ao topo das 82 montanhas, como o primeiro fora da Europa a colocar o seu nome na lista.

“Este feito é histórico porque não é apenas uma montanha, mas 82 que precisam ser escaladas. E cada uma delas representa uma página da história do alpinismo mundial. Não é porque sou o primeiro brasileiro que conseguiu completar, mas no meu ponto de vista, o 4 Mil dos Alpes é o projeto mais importante dentro do montanhismo no País”, disse o alpinista, que foi o primeiro brasileiro a atingir o topo do Everest.

Para completar os verticais, Waldemar contou com a ajuda de Vinicius Todero e Marcos Costa, que escalaram junto com o paranaense as quatro últimas montanhas que restavam. “São muito bons. Entendem muito. São fortes e humildes. Com eles, eu encontrei o meu dream team”, relata Niclevicz. 

Os Alpes europeus representam o berço do alpinismo. O Mont Blanc, a maior montanha da cordilheira, foi escalada em 1786, e o feito é considerado o nascimento do alpinismo como esporte no mundo. 

Essa cadeia de montanhas tem 1100 quilômetros de extensão, e se localiza na fronteira entre quatro países. Mas são nos encontros dos territórios italiano, francês e suíço que ficam os maiores verticais. Em 1994, a UIAA definiu a região como um percurso de alpinismo esportivo, listando os 82 cumes que deveriam ser atingidos para completar o programa.

A expedição foi bem planejada por Waldemar. Porém, a falta de patrocinadores, lesões e a pandemia esticaram o plano e obrigaram o brasileiro a subir de forma parcelada, postergando o término da empreitada por necessidades e obrigações que ele não podia driblar. 

Entre a primeira montanha escalada, a Matterhorn, em 1991, e a última, a Aiguille du Jardin, em 2022, foram mais de 30 anos. Mas 81 dos 82 cumes alcançados - algumas montanhas ele escalou mais de uma vez -, Waldemar Niclevicz fez a partir de 2018. Foram 78 montanhas até 2019. Restavam quatro até abril: Grande Rocheuse (4102m), Aiguille Verte (4122m), Les Droites (4 milm) e Aiguille du Jardin (4034m).

Ele se planejou para ir em 2002, depois que a ONU (Organização das Nações Unidos) decretou como sendo aquele o “Ano Internacional das Montanhas”. Por falta de patrocínios, ficou inviável. Resolveu voltar em 2018, ano em que completaria 30 anos de escalada. Pensou em ficar quatro meses. Contudo, uma lesão na panturrilha interrompeu a expedição.

“Em 2018, em 30 dias, já tinha escalado 29 montanhas. Mas tive um acidente. A minha perna entrou em um buraco no gelo, e no reflexo de tentar levantar, a minha outra perna furou a minha panturrilha porque estava usando uma sandália com 12 pontas de aço que ajudam o pé a se fixar na neve e não escorregar”, contou. 

“Eu fui ao hospital, e deram um ponto no machucado. Infeccionou. Melhorava, eu voltava a escalar, mas inflamava de novo. Tive de voltar para o Brasil e esperar."

Teve nova tentativa em 2019, mas não conseguiu completar. A pandemia o fez esperar dois anos para voltar aos Alpes. E desta vez, com sucesso: “era para ser uma subida de quatro meses, que acabou se transformando na subida de quatro anos”, brinca. 

Umas das razões que tornam as montanhas dos Alpes umas das mais difíceis de serem escaladas é o nível de exposição que elas possuem. O que significa que, em alguns momentos, os montanhistas precisam subir paredões em que os grampos usados para fixar as cordas estão posicionados longes um do outro. Isso dá uma constante sensação de insegurança e tensão. 

“Em 2019, levei três brasileiros e um chileno para escalar comigo. O chileno, logo na primeira semana, voltou. Um dos brasileiros, que ficaria um mês, me disse: ‘Se eu ficar aqui, eu vou me matar’. Voltou. Ou seja, as escaladas nos Alpes são muito puxadas física, técnica e emocionalmente”, relata Waldemar. 

As montanhas também exigem dos escaladores disciplina, capacidade de planejamento e conhecimento científico sobre aspectos geográficos do local. Ter companhia ajuda, mas saber ler e traduzir indicadores naturais da montanha são tão fundamentais quanto estar ao lado de colegas experientes. Para os Alpes, explica o brasileiro, o ideal é estar frio, com baixa umidade e pressão atmosférica estável. “O frio é um dos nossos melhores aliados porque evita que o gelo se derreta", explica.

Aos 56 anos, Waldemar Niclevicz já definiu o seu próximo objetivo: escalar as faces norte dos Alpes, para onde ainda deve voltar este ano. “Tirando uma meia dúzia, todas as demais montanhas são imponentes, verticais. Por isso, o alpinismo nasceu e se desenvolveu nos Alpes", diz.

Enquanto se planeja para a empreitada, o montanhista, que também é palestrante motivacional e ambientalista, vai se dedicar a reserva natural de araucárias de 120 hectares que está construíndo em Campo Largo (PR), e aos treinos que faz em Marumbi, cidade paranaense onde Waldemar tem residência e é considerada a região onde nasceu o alpinismo esportivo brasileiro.

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