Procura-se zebra

Já não se fazem zebras como antigamente. Pelo menos no Campeonato Paulista. No torneio mais previsível dos últimos anos, não houve uma surpresinha qualquer nas quartas de final, o que permitiu o avanço do quarteto de grandes para as semifinais. O título, portanto, ficará para um de seus maiores vencedores: Corinthians (26), Palmeiras (22), São Paulo (21) ou Santos (18). Sem piedade.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2011 | 00h00

Não sou contra o sucesso dos melhores - Deus me livre e guarde de pretender o mal para quem trabalha com competência. Mas, em torneios em que há eliminação direta, principalmente em jogo único, confesso que acho bacana ver um intruso estragar a pose dos favoritos. A satisfação é tanto maior quanto menor for o cartel do traquinas da hora. É, até, uma forma de proporcionar quebra da ordem, da mesmice.

Não foi desta vez no certame do quintal de casa. Para satisfação dos que o organizaram, haverá quatro clássicos até a definição do título. Público, receita e audiência garantidos - a começar com São Paulo x Santos e Palmeiras x Corinthians, os próximos duelos.

Favorito? Nenhum, e não se trata de aboletar-me no muro. Dei a cara a tapa tantas vezes que estou com coro curtido neste ofício de palpiteiro ludopédico. A neutralidade é questão de justiça, pois os quatro remanescentes nesta corrida maluca da Série A-1 paulista têm méritos e tarimba suficientes para chamar para si a pretensão de ficar com a taça.

Numa avaliação arriscada, com forte possibilidade de cometer injustiça, enfileiraria os candidatos na seguinte sequência: Santos, Palmeiras, São Paulo e Corinthians. Por qualidades e defeitos de cada um - e também pelo emparceiramento na etapa seguinte, já que não dá para haver, por exemplo, final entre Santos e São Paulo, os dois com elencos que possibilitam mais opções aos técnicos.

O Santos me agrada por ter cacoete ofensivo (com 41 gols, divide a artilharia com o São Paulo), por contar com jogadores criativos, como Neymar, Paulo Henrique Ganso, Zé Eduardo, Elano. E, agora sob o comando de Muricy Ramalho, por tornar menos instável a defesa.

O São Paulo tem no elenco seu ponto alto, pela boa média de qualidade. Paulo Cesar Carpegiani não pode queixar-se de alternativas para fazer modificações, algo que lhe é muito caro. Estou pra ver treinador que mais se diverte e mexer, remexer, revolver uma equipe! Obsessão dele. A defesa muitas vezes se expõe, mas o ataque compensa e resolve.

A inquietação de Carpegiani se manifestou ontem, quando colocou o atacante Henrique no lugar do meia Rodrigo Souto (saiu por contusão) e tornou o time mais agressivo contra a Lusa. Depois, voltou atrás e substituiu o atacante Marlos pelo zagueiro Luiz Eduardo, no segundo tempo do clássico em Barueri. No fim, se deu bem porque Ilsinho (um belo achado colocá-lo no meio) e Dagoberto resolveram com os gols.

O Palmeiras surpreendeu, depois de iniciar o ano sob desconfiança. Afinal, a torcida estava com pé atrás por causa de decepções no ano passado (ninguém engoliu a desclassificação para o Goiás na Sul-Americana) e pela mudança no comando do clube. Felipão conseguiu armar um time homogêneo, sem ser brilhante, e que tem na defesa sua principal referência (levou só 9 gols).

Ainda sofre com ansiedade, como mostrou ontem, diante do Mirassol. Começou bem, ficou em vantagem com gol de Valdivia, mas estremeceu ao levar o empate no fim do primeiro tempo. Acalmou-se um pouco com o gol decisivo de Márcio Araújo. Faltou-lhe segurança para aproveitar outras chances e sair do Pacaembu com vitória mais fácil dos que os 2 a 1.

O Corinthians fecha a quadra. Está em nível semelhante ao do Palmeiras, com uma ligeira desvantagem: a pressão pelo título é maior, pois foi o que lhe restou, com a queda precoce na Libertadores. Pesam sobre jogadores e Tite cobranças dos torcedores. O aspecto psicológico, mais que o técnico, pode ser seu maior entrave.

Contradição. O Flamengo de Wanderley Luxemburgo tem sido criticado por não encantar nem engrenar. Mas ainda não perdeu na temporada, ganhou o primeiro turno do Carioca e é finalista do segundo, ao bater ontem o Flu nos pênaltis. Quer dizer: pode ser campeão sem disputar sequer a finalíssima, se passar pelo Vasco no domingo que vem. Assim mesmo tem levado bordoadas. A vida de Luxemburgo não tem sossego.

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