Ricardo Bufolin/CBG
Ricardo Bufolin/CBG

Procurador vê semelhanças entre os casos de abuso nos EUA e no Brasil

Gláucio Araújo de Oliveira, do Ministério Público do Trabalho, está preocupado com a situação do esporte nacional

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 07h02

Procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho (MPT), Gláucio Araújo de Oliveira não vê qualquer diferença entre o episódio de abuso na ginástica brasileira com o que ocorreu nos Estados Unidos, com o médico Larry Nassar. "Dá perfeitamente para comparar os casos. Não vejo distinção entre as duas condutas", disse, em entrevista ao Estadão.

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Nos EUA, o Nassar foi condenado à prisão perpétua por ter abusado de pelo menos 200 mulheres, a maioria adolescente, durante os 20 anos em que trabalhou com medicina esportiva, seja com a seleção de ginástica norte-americana ou na Universidade do Estado de Michigan. O caso gerou repercussão mundial, derrubou dirigentes de entidades e promoveu mudanças de impacto no esporte.

 

"A condenação nos Estados Unidos mostrou toda a gravidade nesse ambiente esportivo, com assédio moral e sexual. Há um cenário preocupante de aumento das denúncias, mas por outro lado tem uma atribuição maior das autoridades competentes para que elas possam investigar e penalizar os infratores", afirmou o procurador-chefe.

No Brasil, as acusações pesam contra o técnico de ginástica artística Fernando de Carvalho Lopes. Segundo depoimentos de dezenas de atletas, ele teria cometido abusos sexuais durante vários anos em treinos, testes físicos e em viagens com diversos esportistas. O profissional nega as acusações e é esperado para depoimento na Delegacia da Mulher, da Criança e do Adolescente de São Bernardo do Campo, onde o processo corre desde 2016 em segredo de Justiça.

Para o procurador-chefe, o caso é emblemático e terá desdobramentos. "O impacto no esporte é relevante, uma vez que desperta o interesse da sociedade de um modo geral em exigir providências das autoridades competentes, bem como provoca a adoção de medidas preventivas por parte das entidades desportivas, como clubes e confederações, por exemplo", explicou.

Em março, a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) assinou o Termo de Cooperação contra o Assédio Sexual e Abuso no Esporte, do Ministério Público do Trabalho. O documento tem como princípio o combate a esses males que atingem o esporte. Os casos recentes nos Estados Unidos só reforçaram a importância do Termo de Cooperação.

Segundo Gláucio Araújo de Oliveira, o MPT está investigando as denúncias apresentadas na ginástica artística. "Também estamos desenvolvendo em conjunto com as entidades parceiras estudos e ferramentas para apresentar a todos os envolvidos, buscando a devida compreensão do tema assédio moral e sexual", comentou.

TRÊS PERGUNTAS PARA GLÁUCIO ARAÚJO DE OLIVEIRA

1. Como o senhor viu essas denúncias de abuso na ginástica artística?

Surpreso com os inúmeros relatos. E lamento que na época dos fatos as pessoas não denunciaram os assédios cometidos. Tal iniciativa poderia ter evitado a reincidência da conduta pelos infratores.

2. Como as confederações têm feito após assinar o Termo de Cooperação?

As confederações têm acionado o MPT para articular eventos de conscientização no meio que atuam, sem prejuízo da adoção de providências na esfera de atuação do MPT.

3. Quantas confederações já assinaram o Termo de Cooperação? O COB pretende assinar?

Confederação Brasileira de Ciclismo, Confederação Brasileira de Ginástica e Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. O COB será convidado pelo MPT a firmar um Termo de Cooperação.

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