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Programa genético ajuda desenvolvimento do esporte no Brasil

"Atletas do Futuro" planeja entrar nas escolas e clubes

Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

11 de maio de 2016 | 10h00

Em que os atletas que estarão competindo no Rio-2016 são diferentes das pessoas comuns? A resposta vai além do treinamento desses competidores. A resposta pode estar na genética, fundamental para diferenciar um esportista de outro. Ter os genes corretos para determinadas modalidades não faz apenas a diferença entre a elite mundial dos Jogos, mas pode ajudar até mesmo na nossa motivação para fazer uma simples atividade física do dia a dia. Foi com este conhecimento que um time de pesquisadores da Unifesp criou um projeto de estudo com dois objetivos claros: identificar em crianças as modalidades em que elas estariam mais aptas, destacam aptidão, mas também formação de genes e ajudar atletas já formados a entender melhor suas habilidades físicas e ter um treinamento compatível, assim como rendimento, evitando lesões e melhorando performances.

Criado pelo professor João Pesquero, pelo ex-atleta e fisiologista, Paulo Correia, que participou das Olimpíadas de Moscou e Los Angeles, e pelo preparador físico Chiaretto Costa, o "Atletas do Futuro", como o projeto foi batizado, mapeou aproximadamente mil atletas brasileiros de diversas modalidades (entre eles grandes nomes, como Gustavo  Kuerten, Oscar Schmidt, Aurélio Miguel e Joaquim Cruz), montou um banco de dados e já testou as técnicas desenvolvidas no basquete do Palmeiras e também do São José.  O próximo passo é entrar nas escolas, falar com a criançada e, quem sabe, 'despertar' novos talentos.

"Como eu trabalhava com a genética de doença, muitas delas ligadas à parte muscular, comecei a olhar o outro lado da moeda. Olhar o benefício desta informação, o que de bom uma alteração genética pode causar nas pessoas. A gente sabe muito pouco atualmente", explica o professor Pesquero. "A ideia era conhecer isso para usar em crianças. Quando concebi o projeto, o objetivo era orientar jovens no inicio da atividade física. A criança começa a fazer uma atividade, não se adapta e muitas vezes é porque ela não se dá bem, não respeita sua natureza, seus genes", diz.

O "Atleta do Futuro" pode ser dividido em duas etapas. A primeira é a coleta do material genético retirados do tecido epitelial da boca do indivíduo, feita apenas com um kit básico de coleta, semelhante ao utilizado em testes de paternidade. Segundo o professor Pesquero, existem entre 250 e 300 genes que podem ser associados à prática esportiva, mas apenas quatro estão sendo  buscados atualmente. Eles são os considerados mais relevantes nesse sentido. A segunda é que após identificados os marcadores dentro do DNA de cada indivíduo, uma orientação junto de treinamento específico é recomendada. 

"As atividades físicas são propícias para determinadas pessoas e não para outras, seu perfil genético vai indicar para que lado você pode ser melhor", comenta Paulo Correia. "Podemos direcionar o atleta para um trabalho voltado para a genética, não só para os marcadores fisiológicos, para conseguir um melhora de desempenho, atingir a plenitude física. O ideal é começar lá de trás, com nossas crianças", diz Correia

SUCESSO

Apesar de a associação entre genética e esporte não ser novidade, o trabalho desenvolvido no "Atletas do Futuro" é pioneiro por ser o primeiro a conciliar efetivamente treinamento com mapeamento genético e já ter sido testado no alto desempenho. A primeira implementação bem sucedida foi no basquete do  Palmeiras, em 2013. Na ocasião, a equipe disputava a NBB (Novo Basquete Brasil) e após um primeiro turno complicado, testou o programa aliado ao treinamento específico. No segundo turno, o time venceu dez dos 17 jogos e ficou perto da classificação para os playoffs. Mas não obteve a vaga devido ao mau início de competição.

"Quando chegamos, o time estava muito mal e tinha atletas que pensavam, inclusive, em se aposentar. Fizemos as coletas, analisamos os perfis genéticos de cada um. Começamos a respeitar a individualidade de cada um, quem ele é e não quanto está treinado ou treinando. E no nosso trabalho, todos os atletas subiram juntos no nível físico. O desempenho melhorou. Em dois meses de trabalho, eles começaram a apresentar resposta", explica Correia.

A segunda tentativa aconteceu no basquete do São José. A marca impressionante foi de que a partir da utilização das recomendações o número de lesões zerou. "Os  resultados os jogadores também foram excelentes", afirma o fisiologista. 

FUTURO

O mapeamento genético hoje já é feito em diversos atletas pelo Brasil, em parcerias com a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), com a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) e em clubes como Palmeiras, Santos e Red Bull Brasil, entre outros. A interferência no treinamento que, segundo os pesquisadores, efetivamente fez diferença é que ainda está longe de ser posta em prática, já que haveria resistência por parte de responsáveis. "Como aplicar essa informação se ninguém quer", diz Pesquero.

"Eu e o Chiaretto desenvolvemos, aliamos o conhecimento de treinadores. E eu também fui atleta, fui treinador de atletismo, e sou fisiologista. Então, agregando tudo isso, conseguimos desenvolver uma metodologia de treinamento que, utilizando os marcadores genéticos, facilita muito nossa vida", explica. 

O próximo passo é a desejada entrada nas escolas. Apesar de conversas iniciais com o Ministério do Esporte, a primeira parceria deve ser com um colégio privado. Segundo os pesquisadores, talvez no próximo ciclo olímpico já existam atletas utilizando o programa tanto na hora de serem revelados quanto para obter alto rendimento. O importante, afirma Pesquero, é que não é apenas a genética que irá ser determinante nem na hora das medalhas nem na hora de uma criança escolher uma atividade física. Mas pode ajudar. 

"Quando a gente começou a falar disso, houve muitos comentários. 'Você vai utilizar isso para excluir gente da atividade?' E a ideia é justamente o oposto. Você incluir as pessoas, colocar a criança no lugar certo e no caminho certo. Muitas vezes, ela se exclui porque não se sente à vontade em determinadas modalidades. A gente entende que a genética não é tudo. É um fator extremamente importante para decidir, mas não é tudo. Existe outras variáveis, inclusive motivacionais. Mas acreditamos que utilizando mais esse lado fica mais fácil motivar um jovem."

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