Propina no ventilador

A três dias das eleições da FIFA, Jerome Valcke e Sepp Blatter não esperavam pela resposta que ouviram de Mohammed Bin Hammam. Na segunda-feira passada, a FIFA lançou dossiê com acusações de que Bin Hamman fez reuniões em março, no Caribe, para acertar a compra dos 35 votos da Concacaf. A resposta de Hammam à acusação: "Eu sou culpado! Mas tanto quanto Blatter."

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Em outras palavras, Hammam disse que dança conforme a música. Diz que a FIFA criou uma máquina de corrupção, em que comprar e vender votos é a regra. Quem inventou o jeito de jogar foi Blatter e ele, Bin Hammam, apenas lê o manual de instruções.

O que agrava o ritual da corrupção na FIFA é o fato de todo o poder estar nas mãos de 208 delegados. É quase impossível que Blatter perca a eleição desta quarta-feira e, portanto, difícil prever que a regra do jogo mude a curto prazo. Mas quando Hammam percebeu que poderia se aproximar do número de votos do atual presidente, tratou de adiantar o processo. Comprou 35 votos da Concacaf.

"Os corruptos sabem exatamente quem pode ser corrompido", disse o presidente da Uefa, Michel Platini. O presidente da Concacaf, Jack Warner, sabe exatamente por que foi procurado por Bim Hammam.

Warner é o mesmo acusado por Lord Triesman, três semanas atrás, junto com Ricardo Teixeira, Nicolas Leóz e Worak Makudi, da Tailândia. Tem currículo extenso na carreira de gângster (ops!), de dirigente internacional. Daí estar no centro do tabuleiro da eleição da FIFA, nesta quarta-feira.

Hoje, há nove dos 24 membros do Comitê Executivo da FIFA acusados de corrupção nos últimos seis meses. Nigéria, Taiti, Camarões, Costa do Marfim, Tailândia, Trinidad e Tobago, Catar, Paraguai e... Brasil!

Em sua acusação contra Ricardo Teixeira, Lord Triesman diz ter ouvido a seguinte frase: "Lula não manda nada, venha até mim e diga o que você tem para mim." Digamos então que Lula deixou o Brasil mais perto do primeiro mundo do que Ricardo Teixeira.

Teixeira foi objeto de documentário da BBC, no início da semana. A emissora inglesa diz que o presidente da CBF e João Havelange admitiram na corte suíça ter recebido propina. Diz também que a FIFA bloqueia os nomes dos dois e Blatter se esforça para segurar esse escândalo até a eleição.

É possível que o jogo sujo da FIFA fique mais evidente depois de quarta-feira. É provável que Blatter vença e todos os velhos amigos brindem em silêncio. Nas listas dos jornais ingleses, Ricardo Teixeira tem seu nome lado a lado com os presidentes das federações do Taiti, Trinidad e Tobago, Nigéria, Camarões...

A estupidez de Ânderson. Digamos que essa pode ser uma das razões pelas quais cada dia mais jogadores brasileiros fazem questão de tratar o futebol doméstico, do Brasil, como produto de quinta categoria.

Na terça-feira, o volante Ânderson revelou estar perto de renovar seu contrato com o Manchester United por mais três anos. Em seguida declarou: "Vou encerrar minha carreira aqui. Depois volto ao Brasil para dar uma roubadinha no meu Grêmiozinho."

Ânderson pode preferir a reserva no Manchester United a jogar futebol de verdade em qualquer lugar do mundo. Ambição, e a falta dela, não se discute.

Respeito também não. Há os que se dão o respeito e os que não sabem o que a palavra significa, como Ânderson. Mas sua declaração sincera e estúpida reflete a gestão do futebol brasileiro nos últimos 22 anos.

No período em que a Inglaterra saiu da tragédia de Sheffield para ter a maior liga do planeta, o Brasil perdeu a identidade com o bem mais precioso de seu futebol: os jogadores.

Doação. O Palmeiras pode ver acontecer com o atacante Vinicius um pouco do que aconteceu com Ilsinho, cinco anos atrás. Contrato perto do fim e interesses de empresários em tirá-lo do clube. Quem não conhece futebol pode achar que o jogador não tem futuro. Era o que se dizia de Ilsinho que explodiu e se foi. O Palmeiras pode descobrir que tinha um bom jogador, quando ele pertencer a um fundo de investimentos e estiver longe do Parque Antártica.

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