Protestos? nem os ''oficiais''

Mordaça total - Pequim prende até idosas que queriam se manifestar

Cláudia Trevisan, correspondente, Pequim, O Estadao de S.Paulo

22 de agosto de 2008 | 00h00

Propagados como um indício de que as autoridades chinesas abririam uma pequena fresta para a liberdade de expressão durante a Olimpíada, as três zonas de protestos "oficiais" de Pequim chegam ao fim dos Jogos sem abrigar uma única manifestação. Os 77 pedidos apresentados à polícia foram rejeitados (ler abaixo) e duas mulheres de quase 80 anos que solicitaram autorização para realizar demonstrações nos locais foram condenadas a um ano de trabalhos forçados nos "campos de reeducação" chineses. Li Xuehui diz que sua mãe, Wu Dianyuan, de 79 anos, e a amiga Wang Xiuying, de 77 anos, foram colocadas em prisão domiciliar depois de terem registrado cinco pedidos consecutivos para protestarem em um dos parques. Ambas pedem compensação das autoridades pela demolição de suas casas em 2001 para dar lugar à remodelação de Pequim em razão dos Jogos Olímpicos de 2008. A polícia de Pequim anunciou ontem a prisão administrativa por dez dias de seis estrangeiros que a organização Students for a Free Tibet acredita serem os mesmos que se manifestaram na terça-feira contra o domínio do Tibete pela China. No comunicado sobre a prisão, o governo não identifica as seis pessoas e diz apenas que elas foram detidas por "perturbar a ordem pública".Outros quatro estrangeiros foram presos na manhã de ontem, quando realizavam um protesto pró-independência do Tibete. Dois fotógrafos da agência de notícias Associated Press que cobriam a manifestação foram detidos e interrogados. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, o governo ordenou a investigação de cidadãos que derem informações a jornalistas estrangeiros. Tanto a prisão administrativa quanto o envio a campos de reeducação pelo trabalho podem ser ordenados pelo governo sem a intervenção do Poder Judiciário e sem dar oportunidade de defesa aos acusados. Em razão da idade avançada, Wu Dianyuan e Wang Xiuyin deverão permanecer em prisão domiciliar, mas podem ser enviadas para um campo de reeducação se insistirem em questionar as autoridades, diz o filho de Wu, Li Xuehui. "Wang Xiuying é quase cega e paralítica. Que tipo de reeducação pelo trabalho ela pode realizar?", declarou ele à Associated Press.A entidade Human Rights Watch afirma que pelo menos cinco chineses, além de Wu e Wang, foram presos ou intimidados por terem pedido autorização para realizar manifestações nos locais "oficiais". "Essas pessoas foram punidas por tentarem exercer direitos que o governo chinês prometeu a elas", observou Phelim Kine, da Human Rights Watch. Segundo Kine, a prisão domiciliar de duas mulheres de quase 80 anos é "vergonhosa" e "chocante" e demonstra a farsa das zonas de protestos apontadas pelo governo chinês para o período da Olimpíada.

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