Provocação: como fazer e devolver

Em tudo que li e ouvi sobre o grande jogo entre Santos e Palmeiras, senti falta de uma observação essencial: o Palmeiras ganhou na bola - e ainda mostrou humor! Sim, teve algumas pancadas, mas foram de lado a lado e são costumeiras em clássicos, nos quais o jogo de nervos pesa mais ainda. Por ironia, quem perdeu a estribeira desta vez foi Neymar, depois de Pierre limpamente lhe tirar a bola. E a "rebolation" feita pelos palmeirenses quando marcaram os gols, parodiando as dancinhas dos brilhantes meninos da Vila, foi muito divertida. É assim que se fazem e assim que se devolvem provocações: na bola, no correr do jogo, e com humor, nas comemorações.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2010 | 00h00

O jogo deveria ter sido celebrado porque os dois times buscaram o gol, porque partiram para cima como nos bons tempos do futebol brasileiro, usando todos os recursos da escola: a alternância de toques de primeira com dribles sinuosos, a sanha pelo gol combinada com categoria e cadência. O lance do segundo gol do Palmeiras, feito no momento certo, poderia ter sido assinado por Ganso, Robinho e Neymar: Diego abriu de letra, Escudero cruzou por baixo, Robert concluiu no canto. Como já escrevi aqui muitas vezes, nada melhor que um grande adversário para que um time extraia seu melhor; ou, na frase do grande ensaísta inglês William Hazlitt, "agradeço aos inimigos por reforçarem meus nervos e aprimorarem minhas habilidades".

O debate, porém, foi todo de novo para as velhas polaridades. Pelé, que comemora 70 anos neste ano e celebra 40 anos da Copa de 70, é nosso maior jogador porque sempre soube unir combatividade e criatividade, prosa e poesia como Machado ou Rosa. "Nunca fui de ficar equilibrando bola na nuca", disse o rei. E veja os jogos da seleção de 70 que a TV anda retransmitindo na íntegra. O ritmo é mais lento que o atual, mas era lento para os dois times; e a tática e a velocidade eram tão importantes quanto a técnica e o improviso - caso contrário, eles não teriam se distribuído tão bem em campo.

Note que ninguém ficava passando pé por cima da bola para supostamente desestabilizar o adversário. Se Clodoaldo driblou quatro em sequência, foi para não ser desarmado no meio; se Jairzinho deu chapéu no goleiro, foi porque encontrou essa solução; se Pelé deixou a bola passar em vez de dominá-la, foi para que o goleiro Mazurkiewicz passasse em branco. (O mesmo Pelé que sabia revidar as entradas duras sem ser flagrado pelo árbitro e sem sair xingando em voz alta.) O segredo é fazer de modo simples aquilo que os outros não sabem fazer ou não têm presença de espírito para fazer. Veja os três gols de Messi no domingo! Depois que o surpreendente é feito, parece óbvio...

Há muitos chatos recriminando a alegria moleque, sim, mas também é um erro passar a mão na cabeça de Ganso quando dá tostão proposital em Ronaldo e na de Neymar quando dá chapéu depois do apito. Falar isso é querer que esse time do Santos seja ainda melhor do que é, ou pelo menos tão bom quanto já se acha. A defesa é fraca, sobretudo no jogo aéreo, e falta equilíbrio emocional para não confundir empolgação com alienação. Com menos marra e mais garra, esse time tem tudo para ser campeão do Paulista. O talento é o mais importante e esse ninguém tira do talentoso - exceto ele próprio.

El Coringón. Ronaldo e Roberto Carlos parece que começaram a despertar pouco antes de ser tarde demais. Ronaldo não fez gols - até perdeu dois cara a cara -, mas deu os passes que decidiram o jogo contra o Santo André. Roberto não apenas acertou o poderoso chute, mas tem participado bastante na marcação, saída e apoio. Tudo indica que não há espaço para Danilo e Tcheco, apenas para um deles, na escalação titular. Com Jorge Henrique e Dentinho, o time tem velocidade, o jogo se abre, a bola chega mais para Ronaldo. A vantagem para o ano passado pode ser o número maior de opções no banco.

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