Psicóloga diz que clubes recusam ajuda

Para Andrea Sebben, psicóloga intercultural, o problema é que atletas e dirigentes entendem que apoio é desnecessário

O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2011 | 03h07

O caso do zagueiro Breno, de 21 anos, do Bayern, suspeito de ter colocado fogo em sua própria casa em Munique, e do lateral-direito Mario Fernandes, também de 21 anos, do Grêmio, que recusou convite para jogar na seleção brasileira alegando problemas particulares, escancararam nesta semana uma triste realidade do esporte nacional: a deficiência na preparação da maioria dos atletas para o sucesso.

Andrea Sebben, psicóloga intercultural, membro da International Association for Cross-Cultural Psychology (IACCP) e autora de vários livros sobre o tema, explica que o maior desafio é convencer atletas e clubes deque eles precisam de auxílio para os problemas que vão enfrentar. "No futebol, os clubes acham que não precisam de apoio. O agente e o jogador também pensam assim. Em compensação, as grandes corporações, as multinacionais, os grandes executivos, sempre acham isso fundamental", afirma Andrea.

Ao saber da declaração do zagueiro Breno, publicada ontem no jornal O Globo - "No Brasil, eu tinha menos dinheiro e menos luxo, mas era feliz. Aqui eu tenho dinheiro, mas me falta todo o resto" - Andrea explica que a frase sintetiza tudo que ocorre de uma hora para a outra na vida do atleta.

"Não se trata de ser pobre e feliz, mas de se sentir amparado. Fora do País, o garoto pode ter um grande salário, mas vive no desamparo, do idioma, do afeto, da família... O dinheiro não dá conta de tudo isso. As pessoas imaginam que ganhos materiais compensam todas outras coisas, mas não é assim." E até exagera para exemplificar. "Seria como se qualquer pessoa tivesse de tomar uma decisão; trocar 100 milhões por tudo que o cerca, como família, carinho e amigos. Pois é essa a decisão que alguns garotos são obrigados a tomar."

Para que os atletas consigam conviver melhor com isso, a psicóloga defende uma mudança estrutural no processo de formação. "A questão prioritária, tanto para o clube que recebe um jogador de outro país, quanto para o time profissional que promove um atleta das categorias de base, é a acolhida. Saber receber quem chega, entender as limitações e as diferenças de cada um, é um trabalho que exige cuidados. Os clubes recebem todos da mesma forma, como se todos fossem ter reações iguais."

E Andrea não poupa críticas ao comportamento dos dirigentes. "Falta comprometimento do clube, que espera um grande rendimento dentro de campo, mas não tem nenhuma preocupação fora dele, como se isso fosse problema só do atleta."

O fato de alguns jovens talentos também desenvolverem síndrome do pânico é visto pela especialista como reflexo de toda a transformação que ocorre na vida do garoto recém-saído das categorias de base. "A síndrome do pânico é uma avalanche de pensamentos catastróficos e tem um componente neuroquímico importante, que exige medicamentos", diz Andrea Sebben.

"Atletas saudáveis". O professor João Paulo Subirá Medina, diretor executivo da Universidade do Futebol e mestre em Filosofia da Educação, que já coordenou vários trabalhos em categorias de base de grandes clubes brasileiros, afirma que problema é a falta de preocupação com a formação de "atletas saudáveis", que o Medina define como aquele que sabe como proceder diante dos desafios da profissão.

"Não é só preparar o atleta. Tem de haver uma preocupação geral com tudo que o cerca. Muitas vezes o clube nem conhece a família do jogador", explica Medina, que defende há muito tempo a necessidade de uma cultura interdisciplinar nos clubes, especialmente nas categorias de base. "Lutamos há muito para introduzir a psicologia no futebol, assim como assistentes sociais trabalhando junto às famílias dos atletas. É preciso ver o jogador na sua totalidade, com uma visão mais humanista", completa. / A. P.

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