Psicólogos temem que atitude de Dunga se reflita nos atletas

De acordo com especialistas, descontrole do líder pode levar comandados a agir [br]da mesma maneira

Ana Paula Garrido, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

A irritação de Dunga ? na última entrevista coletiva xingou, em voz baixa, o jornalista Alex Escobar, da TV Globo ? preocupa o presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac, que afirma desaprovar sua atitude. "Ele não tem a menor condição psicológica para dirigir a seleção", declarou ao Estado.

A pior consequência é o comportamento influenciar os jogadores. Algo possível, ainda mais pela relação que Dunga construiu com a equipe, diz. "Se ele tem o respeito dos demais, acaba influenciando. Se ele é criticado publicamente, os outros também podem se sentir criticados", explicou a psicóloga Henriette Penha Morato. Outro reflexo envolve uma instabilidade que pode se alastrar no elenco. "Os jogadores podem ficar inseguros quando constatarem que o líder tem uma fragilidade emocional", indicou Cozac.

Na entrevista coletiva de ontem, Kaká, que sempre foi conhecido por sua tranquilidade, reclamou publicamente de Juca Kfouri por alguns comentários do jornalista. A atitude atípica já "pode ser indício de descontrole no grupo", de acordo com o psicólogo. "Quando o técnico tem uma explosão como a do Dunga no domingo, a repercussão no time é imediata", afirmou.

Henriette pondera a situação complicada vivida pelo meia da seleção. "O Kaká tem outras razões, como a expulsão no último jogo. Há uma situação de estresse independentemente da atitude do Dunga, além do que nem todos se submetem à posição do líder", observou.

Sem apoio. A competição por si só já provoca um forte fator de tensão. Daí a necessidade de um apoio psicológico aos jogadores e à comissão técnica. "Já deveria ter um trabalho com eles desde o ano passado, como 20 das 32 seleções fizeram", analisou Cozac. Para ele, o fato de Dunga não aprovar um suporte emocional indica outra característica de seu perfil. "Pessoas controladoras não permitem que outros interfiram naquelas que lidera."

Apenas bons resultados podem reverter o clima hostil da seleção com a imprensa, na opinião do presidente da Associação. "Vamos ficar reféns das boas apresentações, pois qualquer fator negativo será uma pólvora", prevê. No entanto, segundo Henriette, a mudança de um quadro complicado pode partir de qualquer um. "A iniciativa não precisa vir do chefe."

Mágoa antiga. A postura do técnico da seleção "não é desabafo por um desentendimento recente". O motivo do conflito vem desde 1990, segundo Cozac, quando Dunga, então jogador, teve o desempenho bastante questionado pela imprensa. O clima chegou a ser amenizado em 1994, com a conquista do tetra. "Mas se observa que ele mantém vivo um ressentimento. Não há outro motivo aparente para tanta raiva", avaliou o psicólogo.

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